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VOA
Revista Vegetarianos
De olho na midia

MATÉRIA REVISTA VEJA
Data: 06/02/2008
Tema: Com Jeito de Gente


Os bichos às vezes se comportam como os seres humanos: Muitas pesquisas garantem que sim!
As pesquisas com animais, cmoo se sabe, ajudam a ciência a avançar. Com ela, pode-se tanto decifrar a natureza das espécies como criar remédios para males que afligem os humanos. Frequentemente, as pesquisas com animais também revvelam surpresas - descobre-se que eles adotam comportamentos semelhantes aos das pessoas. Pelo menos, essa é a interpretação dos cientistas. Os elefantes têm compaixão por seus mortos e vão visitar seus restos regularmente. Os botos machos oferecem presentes e mimos às f^Çemeas para seduzi-las. Parece invenção de Hollywood, mas essas são conclusões de pesquisas feitas recentemente. Até que ponto essas semelhanças estão apenas na imaginação dos pesquisadores? O fato de animais, aparentemente, se comportarem como nós não significa que eles são movidos pelos mesmos instintos e motivos. No caso dos grandes primatas, as semelhanças de comprotament até fazem sentido. Ssabe-se que o homem e o chipanzé tinham um ancestral comum há cerca de 6 milhões de anos, quando as duas espécies se dividiram. Homem e chimpanzé têm 96% do genoma idêntico. É compreensível que o cãozinho fique com expressão melancólica quando o dono está triste. Esse é o resultado de uma amizade que já dura 12.000 anos. Mas o que dizer da espécie de macaco das selvas asiáticas cujos machos "pagam" pelo sexo com fêmeas usando cafunés como moeda? Seria a mais antiga das profissões ainda mais antiga do que se pensa? Essa interpretação do comportamento dos macacos asiáticos, evidentemente, só se sustenta à luz da comparação com os hábitos humanos. Diz a bióloga Eleonora Trajano, do Institudo de Biociências da Universidade de São Paulo; "Nosso comportamento é determinado por valores e sentimentos influenciados por nossa cultura. Não é o que acontece com os animais. Por isso, é preciso cautela ao atribuir características humanas a outras espécies".

MOSCA BÊBADA SAI DO ARMÁRIO:
As bebidas alcoólicas tornam os humanos mais corajosos ao se aproximar do sexo oposto. Para entender como o álcool atua no sistema nervoso, cientistas da Universidade do Estado da Pensilvânia resolveram embriagar drosófilas, as moscas-das-frutas, um dos organismos mais propícios à experiências de laboratório. Eles submeteram as drosófilas ao vapor alcoólico dentro de uma câmara de plástico apelidada de flypub ( em inglês, bar das moscas ).Quando expostos ao álcool, os machos da espécie ficaram mais excitados e passaram a cortejar outros machos. Chegaram a formar "trenzinhos", um subindo sobre o outro. Sem o estímulo do álcool, os machos normalmente acasalam apenas com parceiras do sexo oposto. O estudo conclui que o álcool afeta da mesma forma o sistema nervoso dos seres humanos e das drosófilas, deixando-os mais desinibidos sexualmente. Há a hipótese de que o álcool apenas interfira na capacidade da drosófila de identificar os hormônios sexuais característicos das fêmeas.


LÁGRIMAS DE ELEFANTE:
Um estudo da Universidade de Oxford, feito com cinquenta elefantes, concluiu que eles lamentam a morte de seus semelhantes. Para demonstrá-los, cheiram e tocam seus restos mortais com a tromba e as patas.  Outro estudo, da Universidade de Sussex, afirma que os elefantes voltam a interagir com os cadáveres mesmo anos depois da morte, o que representaria uma espécie de homenagem póstuma. No mundo animal, raramente uma espécie demonstra interesse por seus mortos. "Esse é um exemplo de como os elefantes e os humanos podem compartilhar emoções como a compaixão", afirma o zoólogo lain Douglas-Hamilton, da Universidade de Oxford.



O AMOR MERCENÁRIOS DAS MACACAS:
Os seres humanos não são os únicos a comprar favores sexuais, informa uma pesquisa realizada pelo biólogo Michael Gumert, da Universidade Tecnológica de Nanyang, em Cingapura. Quando recebem cafunés de um macho, as fêmeas da espécie Macaca fascicularis, natural das selvas asiáticas, tentem a manter mais relações sexuais com ele do que teriam em condições normais. Além disso, as macacas ficam mais propensas a dispensar os demais interessados nelas. Mas o fator-chave para vislumbrar a existência de um "mercado do sexo" entre os macacos estaria no fato de que, quanto maior a quantidade de fêmeas disponíveis, menor a quantidade de cafunés que um macho se dispõe a oferecer para acasalar. A interpretação feita pelo cientista não é a única possível. O comportamento das macacas pode indicar que elas apenas se apegam aos parceiros que lhes façam carícias.

A PAQUERA DOS BOTOS:
Da mesma maneira que os homens oferecem flores à amada, os botos-cor-de-rosa da Amazônia carregam ramos de ervas e gravetos como forma de atrais as fêmeas. É o que concluem os pesquisadores Vera da Silva, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, e Tony Martin, do British Antartic Survey. Ao estudarem 221 grupos de botos, eles descobriram, por meio da análise genética, que os machos galanteadores costumam gerar maior número de filhotes dentro dos grupos, um indício de que o hábito de carregar objetos pode ser uma estratégia para atrair mais fêmeas. Outro indício de que o comportamento tem conotação sexual, dizem os estudiosos, é que ele não é repetido pelas fêmeas nem pelos botos jovens, mas apenas pelos machos adultos.


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Assista agora o vídeo da Instituição Nina Rosa através do YOUTUBE, que demonstra o que o Instituto faz e o que o ser humano faz aos animais.

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REPORTAGEM REVISTA EPOCA 23 ABRIL 2007
Data: 23 ABRIL 2007
Tema: PARAR DE COMER CARNE PODE SALVAR A AMAZONIA?

João Meirelles Filho pertence à terceira geração de pecuaristas em sua família. Formado em Administração, passou dez anos gerindo fazendas de gado em Mato Grosso do Sul. No fim da década de 90, sua carreira mudou. Com a chegada do ecoturismo à região, Meirelles acordou para os impactos ambientais de algumas atividades, como a pecuária. Deixou de comer carne. Largou as fazendas e mudou-se para Belém, onde fundou uma ONG para defender a Amazônia. Hoje, vegetariano, é um dos que pregam a redução no consumo de carne bovina para salvar a floresta. "Parei de comer carne aos 40 anos", diz. "É prova de que qualquer um pode mudar seus hábitos".
Meirelles faz parte de um movimento que cresce em todo o mundo. Para essas pessoas, os bifes de nossas refeições diárias são a causa da destruição de vários ecossistemas naturais, como a Amazônia. É uma idéia incômoda, mas tem lógica. Afinal, 78% do desmatamento na Amazônia aconteceu para abrir espaço para os pastos, segundo o Instituto Homem e Meio Ambiente da Amazônia ( Imazon ). O argumento é que, se o consumo de carne cair, também se reduz a pressão para expansão dos pastos sobre a floresta. Mas reduzir o consumo de carne - ou boicotá-lo - vai mesmo preservar a floresta?
Para de comer carne sempre foi a bandeira dos vegetarianos. Suas razões eram principalmente a saúde humana e os direitos dos animais. Hoje, o foco mudou. "Agora o meio ambiente pesa na decisão de não comer carne", diz o biólogo Sérgio Greif, da Sociedade Vegetariana Brasileira. Um dos pioneiros nessa nova onda foi o pesquisador britânico Norman Meyers, da Universidade de Oxford, um dos mais respeitados naturalistas do mundo. Na década de 80, criou o termo "Conexão Hambúrguer" para ligar o consumo de carne nas redes de fast-food dos Estados Unidos à destruição das florestas na América Central. Um dossiê inspirado no termo de Myers foi feito em 2003 pelo Centro para Pesquisa Florestal Internacional, desta vez sobre a Amazônia. De lá para cá, a causa só cresceu.


Pelas  plantas: O biólogo Sérgio Greif em um mercado de São Paulo: "Só o vegetarianismo pode salvar o mundo da fome".

Um dos mais expoentes adeptos da campanha por menos carne e mais florestas é o biólogo americano Edward Wilson, da Universidade de Harvard. Segundo ele, só será possivel alimentar a população mundial no fim do século, estimada em 10 bilhões de pessoas, se todos forem vegetarianos. "O raciocínio é matemático", diz Greif. Para ele, alimentar os bois com pasto ou grãos é o meio menos eficiente de gerar calorias. A produção de grãos de uma fazenda com 100 hectares pode alimentar 1.100 pessoas comendo soja, ou 2.500 com milho. Se a produção dessa área for usada para ração bovina ou pasto, a carne produzida alimentaria o equivalente a oito pessoas. A criação de frangos e porcos também afeta as florestas. Para alimentar esses animais, é necessário derrubar árvores para plantar soja e produzir ração. Mas, na relação custo-beneficio entre espaço, recursos e naturais e ganho calórico, o boi é o pior.

O gado tem sido considerado o grande vilão da Amazônia. Hoje, o Brasil mantém 195 milhões de bovinos, Há mais bois que pessoas. Cerca de 35% desse rebanho está na Amazônia. Para alimentar o gado, os pecuaristas desmataram uma área de 550 quilômetros quadrados, o equivalente ao Estado de Minas Gerais. Criados livres no campo, sem ração, os bois precisam todo ano de novas áreas derrubadas para a formação de pasto.
A pecuária na região está ligada à ocupação irregular de terras públicas. As terras  da região pertencem ao Estado e em sua grande maioria foram tomadas na forma de posse. "Sem ter de pagar pela terra, fica mais barato produzir lá que no Sul e no Sudeste", diz Paulo Barreto, do Imazon. Para comprovar a posse da área tomada, o fazendeiro precisa mostrar que a terra é produtiva. "Para isso também servem os bois", afirma Barreto.
Além disso, segundo o Banco Mundial, o modelo regional de pecuária não traz o desenvolvimento. Seria até o contrário. Primeiro, porque a disputa por terras públicas faz a Amazônia ter um índice alto de assassinatos no campo. Cindo dos dez municípios mais violentos do país estão na região. Dados do Banco Mundial também demonstram que os Índices de Desenvolvimento Humano ( IDH ) das cidades com grandes rebanhos são similares aos dos países mais pobres do mundo.
A tendência é que os bois avancem mais sobre a floresta, para atender a uma demanda crescente de carne para exportação. Hoje, 10% dos bois abatidos na Amazônia abastecem o mercado internacional. O grande obstáculo é a ocorrência de febre aftosa no rebanho da região. O Ministério da Agricultura, os produtores e os pesquisadores acreditam que, com a erradicação da doença, o rebanho pode até duplicar para atender à demanda internacional.


Apetite: Meirelles no Mercado Ver-o-Peso, em Belém. Ex-administrador de fazendas, ele largou o negócio para militar contra a carne.

Diante desse quadro, pregar a redução no consumo de carne faz sentido. Isso não quer dizer que funcione. Para o próprio coordenador do GreenPeace na Amazônia, Paulo Adário, a idéia de salvar a floresta pela campanha contra o consumo de carne é "problemática". O primeiro obstáculo, para ele, é o gosto do brasileiro pelo churrasco. "Não somos um país culturalmente vegetariano", diz Adário. "Essa redução é mais fácil em alguns países, em outros não". O segundo obstáculo é convencer a parcela da população que acabou de comemorar sua ascensão social, com acesso à carne, a abrir mão do churrasco no fim de semana. Com a desvalorização do dólar e a estabilização da economia mundial, muitas pessoas começaram a comer seus primeiros bifes diários nos últimos dez anos. Essa mudança de hábito alimentar é é mundial. Aconteceu no Nordeste brasileiro e até na China, abrindo um novo mercado para a carne. "Falar para essa população que agora ela não pode comer carne pelo bem da Amazônia é, no mínimo, cruel".
A solução pode ser um caminho intermediário. Parte dela passaria por uma redução - e não um abandono completo - do consumo de carne. Um brasileiro consome, em média, 38 quilos de carne bovina por ano. "Se optássemos por comer carne apenas três vezes por semana, em vez de todos os dias, a demanda seria menor", diz Meirelles. "É uma boa opção para os que possuem poder aquisitivo e acesso a outros tipos de alimentos".
Um primeiro efeito na redução do consumo de carne, por paradoxal que pareça, pode ser um aumento na quantidade de bois. Uma situação similar já aconteceu com a entrada dos grandes frigoríficos na Amazônia, há sete anos. Eles baixaram o preço pago ao pecuarista. "Tivemos de aumentar o rebanho para compensar a queda", diz Ronaldo Freitas, pecuarista de Rondônia. Por outro lado, caso a redução no consumo de carne persista e faça a pecuária ficar menos lucrativa, os pecuaristas podem, a longo prazo, reduzir os rebanhos. "Sem comprador, o melhor seria mudar de atividade", diz Freitas.
Independentemente das campanhas, existem formas de produzir carne sem destruir a floresta. É o que afirma Marcelo Lessa, coordenador de agronegócio do IFC, braço do Banco Mundial que investe no setor privado. Ele está tentando mudar os critérios de compra dos frigoríficos na Amazônia. "É uma aposta para frear o avanço da pecuária predatória", diz. Neste ano, o IFC começou a investir nos frigoríficos da região. Em troca, estabeleceu regra para a compra de carne. Nos próximos dois meses, os frigoríficos não poderão comprar de fazendas que tenham multas ambientais, estejam envolvidas em grilagem de terras ou tenham denúncias de trabalho escravo. Dentro de dois anos, vão exigir a regularização fundiária das fazendas fornecedoras.
Outra esperança é uma nova técnica agrícola desenvolvida pela Embrapa. O projeto é transformar áreas usadas apenas para pecuárias num uso misto, com pastos, lavoura e até manejo florestal. O agricultor faz uma rotação dessas culturas em seu terreno. O gado é alimentado com grãos produzidos na propriedade. Com isso, uma área com 0,7 boi por hectare pode manter um rebanho quatro vezes maior. Gera até um excedente de grãos para venda externa. "Podemos continuar a comer carne sem precisar derrubar mais nenhuma árvore", afirma Barreto, do Imazon.

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PROPAGANDA DE MAU GOSTO DA MARCA PEPSI, VEICULADA EM VÁRIAS REVISTAS NO ANO DE 2007:


Neste anúncio deveria ter sido escrito: "Pepsi Twist. Um toque de mau gosto para sua familia"...

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PROTESTO DA PETA EM SÃO PAULO CONTRA A BENETTON
Da
ta : 18 de Julho de 2005
Local: Loja Benetton da Alameda Lorena 1683
 

Muitos compareceram para pedir o boicote à loja Benetton até que a mesma páre de comprar lã australiana.


     
Jody, da PETA, e HEloísa, da VOA   

Para entender o que acontece com as ovelhas quando são tosadas e mutiladas, assista à este video ( a fonte é segura, não há risco de vírus. Basta apertar o botão Watch It ).

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PROTESTO CONTRA O USO DE PELES
Local: em frente à loja DASLU
Endereço: Chedid Jafet, 131 - Vila Olímpia
Data: 02/07/05 -Sábado
 








Protesto contra a loja Daslu, cujos casacos de pele ainda são, infelizmente, considerados artigos de luxo. 

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REPORTAGEM REVISTA UM
Data: Dezembro de 2007
Tema: Homem que é homem não come carne
Autor: Luis Cesar Pimentel

Ser vegetariano não tem nada de pose - é questão de mostrar postura, contra a matança de animais e contra a devastação do meio ambiente.

A cena é corriqueira. Ao servir minha mulher e a mim em restaurantes, o garçons colocam à minha frente o prato ornado com filé ou outra carne qualquer, e, à metade dela, a escolha vegetariana. Impulsivamente, está nos afirmando que carne é para macho. Assim como discussão sobre a crise do Corinthians.Atitude até menos preconceituosa que incoerente.



Apesar de o Brasil ocupar, segundo o Grupo de Pesquisas IPSOS a vice liderança entre os países em que a população tem a maior propensão a se tornar vegetariana – 28% -, só atrás dos EUA, ainda vigora no cidadão médio a estúpida filosofia camisa-desabotoada-peito-peludo-corrente-de-ouro de que vegetais são para quem abocanha fronhas.
Não poderia me importar menos com o que pensa esse mesmo cidadão médio. Mas burrice incomoda. Muito. Sou obrigado a reagir. Bois são mortos em fila, com marretada ou disparos de pistola de ar comprimido ao cocuruto. Porcos, da mesma maneira, mas têm de ser jogados em água fervente, para separar o espesso couro da carne. Peixes morrem asfixiados. Galinhas, decepadas.

Nas linhas acima, estão as principais razões que me fazem vegetariano. Tive consciência disso aos nove anos, quando assisti no Fantástico ( “O show da vida” ) a matança de bebês foca à pauladas no Canadá.

Se conto isso, sou questionado em relação ao sentimento das plantas, ao serem arrancadas ou cortadas pela raiz. Se alguém me mostrar o sistema nervoso central, que responde pela dor de uma planta, passo a me alimentar na mesma hora de barro.

Mas e a lei da natureza, do mais forte se alimentar do fraco? Respeito, desde que a pessoa então passe a compartilhar o hábito daquele que satisfaz sua fome e o abata em condições iguais.

A afirmação que mais me diverte é a de que só na carne é encontrado um nutriente ( geralmente falam “uma proteína” ) essencial ao ser humano. Se alguém me mostrar esta tal proteína, racho uma picanha no alho com o gênio. A única propriedade de nutricional superior da carne é empacotar o ferro de uma maneira que o organismo humano o absorva mais facilmente. Mas, se você consumir ferro por meio de feijão ou folhas verde-escuras com algo rico em vitamina C, como um copo de suco de laranja, estará ok.

Noves fora, é por isso que enxergo com o mesmo grau de estranheza um porco ou um cachorro à mesa. Não por preconceito ou por sentimento de superioridade, mas por pensar naquilo que consumo e por ter essa consciência registrada no meu código moral.

E seguir aquilo em que se acredita é o que torna o homem com H maiúsculo. Isso é postura de vida. Sei que não mudarei o mundo com isso. Mas eu me importo.


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REPORTAGEM REVISTA VEJA
Data: 22 de Junho de 2005
Tema: Crueldade de Rotina
Autor: Walcyr Carrasco

Nos últimos tempos, tomei certa implicância pela história do politicamente correto. Para mim se tornou uma espécie de censura. Não se pode falar disso ou fazer aquilo. Como escritor, me sinto tolhido. Dia desses, porém, recebi um email de um leitor que mexeu comigo. Dizia quanto se surpreendeu ao constatar que sou consumidor de fígado de ganso, em forma de patê ou de outras iguarias. Lembrava como sofrem as aves para ganhar um fígado gordo e saboroso. Minha primeira reação foi:

“Puxa, não posso nem comer em paz?

Depois, parei para pensar. Fui conversar com um amigo, Franco. Ele me explicou:

-Os gansos são engordados à força para ficar com o fígado enorme. A ração é despejada em sua boca por uma espécie de funil.

Arrepiei-me. Ele continuou:

- Muitos criadores pregam as patas dos gansos no chão, para que não se movam e engordem mais ainda!

Não era uma informação recheada de detalhes técnicos. Lembrei-me de um francês cuja mulher, brasileira, ameaçou separar-se quando ele começou a produzir patê de foie, num sítio próximo à Fernão Dias. Não suportava a crueldade. Também fiquei sabendo que nos Estados Unidos já se programa a proibição da venda. Resolvi: não como mais!

Fiquei pensando: quantas coisas consumo sem me deter na origem? Muitas vezes dou palestras em escolas sobre um livro para jovens de minha autoria, que fala sobre drogas. Uma das questões que coloco é a responsabilidade social:

-Quem usa uma droga, mesmo a considerada leve, tem a obrigação de lembrar que, para ela chegar às suas mãos, passou por uma cadeia de ilegalidades, roubos, violências, talvez mortes. Assim, o usuário é também um cúmplice.

Isso não vale também para outros aspectos da vida? Jamais gostei de casaco de pele. São lindo, é verdade. E... os bichos? Caçados, criados em gaiolas...



Durante as últimas décadas fomos dos distanciando da origem do que comemos. Certa vez levei um garoto à um sitio e lhe mostrei um frango. Ele espantou-se: só conhecia os de supermercado. Ninguém mais vê galinhas, vacas, porcos, a não ser em filmes ou eventuais viagens ao campo. Um grupo, entretanto, já começa a se reocupar em saber como o alimento é produzido. Quem já comeu sabe: um frango caipira, criado ao ar livre, tem sabor muito melhor que os de granja, aprisionados. Alguns são alimentados de maneira tão artificial que a carne tem uma textura estranha. Lembra papelão.

E as espécies ameaçadas? Certa vez estava em um jantar elegantíssimo em Manaus. Serviram tartaruga. Um antiga Miss Brasil, Adalgisa Colombo, estava sentada ao meu lado. Cruzou os talheres e avisou:

-Não como.

Uma outra convidada sorriu:

-Que exagero! Esta aqui já está morta mesmo!

Encheu o prato. Eu já estava me servindo. Tomei consciência. Parei. Afinal, não vivo falando contra a extinção das espécies? Portanto, seria indecente compartilhar o menu.

Não sou e nunca serei um sujeito que vai às raias da loucura com a história do politicamente correto. A vida é uma longa cadeia de espécies que se devoram entre si. Mas existem maneiras de criar animais sem crueldade. Também existe muita comida boa neste mundo. Por mais que eu viva, não experimentarei tudo o que o pecado da gula proporciona. Há coisas em que acredito. Não posso agir como se minhas idéias não tivessem nada a ver com a realidade.

Não quero ser cúmplice do sofrimento de um animal. A dor, de alguma forma, ficará impregnada na refeição. Acredito que os seres trocam energias entre si. Sinceramente, não quero esse tipo de energia dentro de mim. De agora em diante, bani a crueldade do meu cardápio.

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RESPOSTA PUBLICADA DA VOA PARA A REVISTA VEJA SOBRE A CRÔNICA DE WALCYR CARRASCO:
Data: 29 de Junho de 2005
Seção: A Opinião do Leitor

Parabéns pela crônica e, principalmente, pela atitude tomada ao ter feito o que muitas pessoas deveriam fazer antes de se sentar à mesa: pensar.

As pessoas deveriam apenas refletir um pouco para descobrir que o bife servido no prato nada mais é do que um pedaço de um animal que costumava comer, beber, dormir e cuidar de seus filhotes ( que também devem ter virado baby beef... ). Tenho até uma sugestão de nome para uma das maiores fabricantes de salsicha: "Doentia".
O ministério da inteligência adverte: não pensar faz mal à saúde.
HEloísa P.C.M.A.Amar - VOA

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MATÉRIA VEICULADA NA REVISTA SUPER INTERESSANTE
Data: Edição de Maio 2005
Seção: Super Papo - Conversas bacanas com gente interessante.
Tema: O Ecoterrorista

Para o ativista Jerry Vlasak, vale tudo na luta contra o uso de animais como cobaias em testes de laboratórios. Até matar cientistas.

Seria durante uma passagem pela Grã-Bretanha que o médico e ativista americano Jerry Vlasak explicaria à Super Interessante suas opiniões sobre a luta pelos direitos dos animais. A entrevista ocorreria na Inglaterra, durante um encontro promovido por ativistas da Europa e dos Estados Unidos. Mas o texano radicado na Califórnia nem teve oportunidade de arrumar as malas. O governo britânico negou seu pedido de visto, alegando que suas “opiniões perigosas” não são bem-vindas no país.

Ao conversar com a revista por telefone, Vlasak mostrou por que quando abre a boca assusta autoridades, aterroriza a indústria farmacêutica e recebe críticas da maior parte da comunidade científica. Suas idéias são uma amostra do que muita gente chama de ecoterrorismo. Acha, por exemplo, “moralmente aceitável”, o assassinato de cientistas que utilizem cobaias de laboratório. “As mortes só ajudariam a causa”, afirma.

Quando não está atendendo vítimas de acidente de trânsito, tiros e facadas um hospital de Los Angeles, Vlasak dá assessoria científica a entidades como Speak e Shac, duas das mais radicais organizações antitestes com animais. Atualmente, os grupos tentam impedir a construção do novo laboratório de cobaias na Universidade de Oxford e varrer do mapa a Huntingdon Life Sciences, empresa especializada em pesquisas químicas e farmacêuticas. Entre os objetivos dos inimigos de Vlasak estão a busca de tratamentos para doenças como o câncer, diabetes, mal de Parkinson e de Alzheimer.

*Jerry Vlasak, nos tempos de médico-residente, participou de pesquisas contra a arteriosclerose envolvendo cachorros. Abandonou os experimentos por considerá-los “inúteis” e “cruéis”.

*Saboreava um bom bife até 1992, quando leu alguns livros sobre o sofrimento de animais, deu adeus à carne, leite e ovos e virou vegetariano.

*Foi preso por cinco dias por participar de um protesto contra o uso de peles animais em Los Angeles. Questionou a detenção na Justiça e acabou com 20 mil dólares de indenização no bolso.


SI: Porque você julga ser aceitável atacar cientistas que estão usando cobaias para desenvolver novos medicamentos?

Qualquer coisa que detiver essas pessoas é moral e necessária. Não estamos falando de gente inocente. Eles torturam animais em laboratórios todos os dias. Não adianta eu parar numa calçada com um cartaz pedindo o fim dos experimentos. Ninguém vai me ouvir. E a verdade é que nossas táticas funcionam. A Universidade de Cambridge desistiu de construir um laboratório porque ficou com medo dos ativistas Eles também acharam que o sistema de segurança ficaria muito caro. Uma empresa especializada em pesquisas já perdeu 63 clientes e fornecedores. Nossa pressão também já fechou uma fazenda que criava gatos e um canil que fornecia cães da raça beagle para laboratórios. Nelson Mandela dizia que a não-violência é uma estratégia, não um princípio moral. Nós temos o dever moral de fazer o que dá resultados.

SI: Você vê algum limite ético nesse dever?

Não existem limites. Qualquer tática que funcione é legítima. Alguns cientistas só vão acabar com os experimentos se temerem pela própria vida. É uma pena que seja assim. O que fazemos não é muito diferente de assassinar nazistas como Hitler, Himmler ou Goebbels. Se matássemos os três e salvássemos 6 milhões de judeus, ninguém diria que é errado. Creio que o mesmo raciocínio vale para animais. Matar dois, três, cinco ou dez ( pesquisadores ) e salvar milhões de vidas inocentes é moralmente aceitável.

SI: Como a morte de um cientista será capaz de trazer benefícios aos animais?

Observe qualquer movimento de luta contra a opressão, como o combate ao Apartheid na África do Sul e a escravidão nos Estados Unidos. Sempre que uma força exerce pressão sobre outra, a mais fraca recorre à violência. E os resultados acontecem. Até agora ninguém morreu, mas isso ainda vai acontecer. Não estou pedindo isso, apenas prevendo. Você não pegaria em armas para impedir que crianças no jardim de infância fossem torturadas até morrer em laboratórios? Se aceitamos fazer isso por pessoas, mas não por animais, estamos adotando o especismo, ou seja, acreditar que seres humanos são superiores a outras espécies. Sou contra o especismo da mesma maneira que sou contra racismo, machismo e homofobia.

SI: Melhorar a saúde dos humanos não justifica os testes com animais?

Na Alemanha nazista, judeus eram utilizados como cobaias em campos de concentração.Graças a testes assim, cientistas obtiveram informações úteis. Eu acho errado matar de frio um judeu para estudar o combate à hipotermia. Da mesma maneira, sou contra matar animais. Não me interessam os benefícios que essas pesquisas trarão.

SI: Para desenvolver antibióticos, os cientistas valeram-se de testes em cobaias animais. Como médico, você receita este tipo de remédio a seus pacientes?

Claro que sim. Mas o fato de um idiota ter enfiado droga goela abaixo de um animal para verificar a eficácia do tratamento não prova que esse ato seja necessário. É bom lembrar que novos remédios precisam sempre ser testados também em seres humanos.

SI: E como a medicina pode avançar sem experimentar suas novas tecnologias em cobaias de laboratório?

Animais são forçados a viciar-se em cocaína, anfetaminas, cigarros e outras substâncias que todos sabem que são prejudiciais. Em outros experimentos, filhotes são separados de suas mães para estudar o que acontece com pessoas criadas sem afeto. A forma como esses animais sofrem não tem nada a ver com os humanos. Não há razão para isso.

A maior parte das informações úteis para seres humanos é obtida em testes clínicos com seres humanos. Estudamos grandes amostras de pessoas, vemos o que acontece e detectamos padrões. Também podemos usar técnicas como autópsias, a análise de tecidos, testes em culturas de celular humanas e modelos matemáticos. Experimentos assim são muito mais confiáveis do que dar drogas a ratos, coelhos ou outros animais. Quando aplicamos drogas numa fêmea podemos ter efeitos diferentes daqueles verificados num macho. Acreditar que o que você deu ao rato terá o mesmo efeito num ser humano é estúpido. Não faz qualquer sentido. Não funciona.

Na verdade, a utilização de animais pode até atrapalhar esse processo.O desenvolvimento da vacina contra pólio, por exemplo, atrasou dez anos porque o modelo animal não produziu os resultados desejados. Gastam-se centenas de milhões de dólares em pesquisas envolvendo animais e pelo menos 90% dos estudos vão para o lixo. E de tudo que é publicado, no máximo 1% ou 2% realmente tem alguma utilidade.



SI: Se os experimentos em cobaias são mesmo inúteis por que a indústria farmacêutica gasta tanto dinheiro com eles todos os anos?

Testes com animais servem como arma para disputas judiciais. Se o remédio fizer mal, alega-se inocência com base nos testes da droga em muitas espécies. Também há muita gente ganhando dinheiro com pesquisas financiadas por recursos públicos, incluindo as indústrias farmacêuticas. Além disso, governos exigem a realização de testes em animais. Isso é um erro, mas não surpreende. A indústria farmacêutica tem dois lobistas para cada membro do congresso americano. Foi por causa desse tipo de lobby que o meu visto de entrada na Grã-Bretanha foi negado.

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MATÉRIA VEICULADA NA REVISTA VEJA
Data: 18 de Outubro de 1995
Seção: Ponto de Vista
Tema: Eu não como bicho

E pensar que houve um tempo em que eu me deliciava com carne vermelha. Nos almoços e jantares, gostava de filés sangrentos, pantagruélicos churrascos e hambúrgueres suculentos. Achava a carne de animais indispensável. E hoje não consigo olhar uma chuleta. Picanha, nem em fotografia. Só o cheiro de maminha me enjoa. Meu paladar não mudou nem estou mais preocupado com a minha saúde. São as informações e o conhecimento que me embrulharam o estômago. Há dois anos fundei o Instituto de Proteção aos Animais do Brasil, mas batalho pela causa faz mais de dez anos. Uma das atividades do instituto é o recebimento de denúncias sobre maus-tratos aos bichos. Infelizmente, é o setor mais agitado. Foram as denúncias da crueldade contra os animais que me fizeram fugir dos prazeres da carne.

Uma vaca leva três marretadas na cabeça, às vezes mais, para morrer. São marretas de ferro, com cabo de aço, Imagine-se a dor. Quando não morre, o animal é retalhado ainda vivo. Ao ver aquela carne toda assando sobre as brasas da churrasqueira, a imagem que me vem à cabeça é essa. Nem a lembrança do sabor delicioso consegue me fazer render à tentação.

Não como mais carne vermelha. Mas não porque ela pode fazer mal ao meu organismo. Não é uma questão de carne vermelha contra carne branca. Evito carne de boi, porco, aves e peixes. Também não compro cintos, malas nem sapatos de couro animal. Eu protesto pelos crimes contra os animais. Não consumo a carne de um bicho que foi torturado e sofreu intensa dor. Sou vegetariano por uma questão de consciência.

Métodos cruéis de
transporte e abate
são uma violência
contra o direito
dos animais à vida
e à morte dignas”

Mauricio Estevez Coca

Em geral, os homens não estão nem um pouco preocupados com os métodos pelos quais os animais são abatidos. Como seres pretensamente superiores, querem apenas se alimentar. É uma pena, pois todo esse sofrimento, dor e angústia é o que se ingere junto com os bichos. A consciência ecológica, tão decantada, fecha os olhos para as barbaridades cometidas contra os animais.

É uma hipocrisia, e outra forma de egoísmo, abandonar a carne vermelha para comer só frango e peixe. Ora, um frango passa 45 dias ingerindo uma ração pavorosa, sem poder se mexer, unicamente para ser decepado e retalhado. Em gaiolas em que caberiam vinte, ficam entulhados cinqüenta frangos. A galinha, por sua vez, é mantida em ambiente iluminado artificialmente, o tempo inteiro, para botar mais ovos. Assim, viola-se o ciclo noite e dia para, à custa dos animais, conseguir mais lucros. Você já imaginou ficar num cubículo permanentemente iluminado, preso até morrer? Isso é barbárie.

Os bezerros que depois viram baby beef só conhecem o sofrimento em seus poucos meses de vida. Eles são mantidos, desde o nascimento, em cubículos pouco maiores que eles – para não criar músculos e ter a carne nacia. Morrem sem ter dado um único passo. Quanto mais comermos baby beef e vitela, mais bezerros serão mantidos assim. Os porcos, além de ser tratados como animais sujos – que não são – e ser alimentados com restos de comida, muitas vezes na beira de córregos imundos, morrem de forma cruel. Um facão corta-lhes o pescoço de lado a lado, e eles são deixados sangrando até secar. Em alguns casos, depois são jogados numa piscina de água fervendo. Imaginem, morrem esfaqueados e seus corpos são afogados e queimados.

No transporte de bois, se algum cai ou se deita, leva umas bordoadas para se levantar. Quando não dá certo, o motorista do caminhão liga uns fios à bateria e dá choque nos coitados.

Esses métodos cruéis de abate, criação e transporte são mais comuns do que se imagina. Alguns frigoríficos e avícolas já fazem abate humanitário, mas eles são poucos. Além disso, várias pesquisas mostram que cerca de metade da carne que comemos é proveniente de abatedouros clandestinos. Isso significa que, além de sofrer um abate terrível, o animal pode ser doente.

O ato de não comer carne vermelha por não ser saudável é ganância do homem. O ato de não comer outros seres vivos por respeito à eles é algo divino. Todos os animais nascem iguais diante da vida e têm o mesmo direito à uma existência e uma morte dignas.


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MATÉRIA DE CAPA VEICULADA NA REVISTA SUPER INTERESSANTE
Data: Edição 192 Setembro de 2003
Seção: Matéria da capa - Como tratar os animais
Tema: Entre o céu e o Inferno

O homem convive com os animais desde quando ainda tinha a sensação de que era um deles. Ao longo dos anos, já os adoramos como deuses e já os maltratamos como se fossem coisas. Hoje, enquanto várias pessoas pregam que devemos nos isolar dos bichos, outras acreditam que deveríamos tratá-los como membros da família. Afinal, como relacionar-se com eles?

O cachorro é todo marrom, da cauda às longas orelhas, a não ser por uma mancha sobre o olho esquerdo. Se fosse um bicho de estimação, podia ser batizado de Pirata ou Camões, por causa do tapa-olho. Mas esse cachorro não tem nome. Nascido há semanas, ele foi logo separado da mãe e passa a vida em uma jaula pouco maior que seu corpo. Sem ter o que fazer, ele come e dorme. Rapidamente engorda. Um dia, ele é enfiado em uma gaiola com outros cães e levado à um galpão. O cheiro de sangue e fezes é forte. Ouvem-se ganidos. Uma pessoa se aproxima e lhe aplica um choque violento. Em instantes, o cão sem nome morre. Seu corpo é jogado sobre uma grelha e seu pêlo, tostado. Em alguns minutos ele é cortado em pedaços para virar churrasco.
A cena descrita acima é real e acontece diariamente na Coréia, onde carne de cachorro é muito apreciada. Fora dali, porém, o abate de cães é considerado uma afronta, uma ofensa aos padrões civilizados. Não deixa de ser curioso, já que porcos, vacas e galinhas têm destinos bem parecidos com o do anônimo cão coreano, mas pouca gente ergue a voz para protegê-los.
O fato de aceitarmos que alguns animais sejam torturados enquanto enchemos outros de cuidados reflete a confusão que fizemos com os seres de outras espécies. Por um lado, nunca houve tanta preocupação com a vida dos bichos. Por outro, nunca tantos sofreram e morreram por nossa culpa. Em um ano, a indústria de artigos para animais de estimação fatura 30 bilhões de dólares nos Estados Unidos vendendo conforto para bichos domésticos. No mesmo prazo, 8 bilhões de frangos são atormentados e mortos por lá. E na mesma Alemanha em que, no ano passado, os animais ganharam um direito constitucional - a lei agora obriga o Estado a respeitar e proteger a dignidade dos homens "e dos animais" -, a carne de porco ainda é a base protéica da população e os suínos vivem confinados a maior parte da vida.
Não é fácil entender como chegamos à essa confusão cultural. Conhecer o passado ajuda a esclarecer as coisas.
O homem come carne de outras espécies há quase 2,5 milhões de anos e já faz mais de 6 mil anos que os criamos, com o único propósito de digeri-los ou vestir sua pele. Curiosamente, muitos deuses dos povos primitivos eram animais. Então o homem primitivo matava seus deuses? Isso mesmo. "O caráter sagrado do animal pode ser visto como um pedido de desculpas, uma solicitação de autorização ou uma compensação, uma homenagem pela sua morte", diz Antonio Fernandes Nascimento Júnior, antropólogo e etólogo ( que estuda o comportamento animal) da Universidade Estadual Paulista ( Unesp ), em Bauru. Em outras palavras, os caçadores podiam matar o bicho, desde que depois rezassem para ele ou por ele. Pecado era faltar com o respeito. "Tratá-los sem o devido respeito poderia causar vinganças dos deuses". Alguns povos exigiam que o animal a ser degolado concordasse com sua morte, o que se conseguia com alguma trapaça, para a qual todo mundo fazia vista grossa. Na Grécia, os sacerdotes derramavam água benta sobre a cabeça do animal. Os gregos espertamente entediam o chacoalhão de cabeça que ele dava para se secar como um "sim".
Hoje em dia, ninguém reza ao deus-chester no almoço de domingo, graças às religiões monoteístas ( judaísmo, cristianismo e islamismo ), que retiraram os poderes mágicos do mundo real e os concentraram em Deus. E é Dele, o Todo-poderoso, que vem a autorização para desfrutarmos dos outros seres. Está na Bíblia: o Jardim do Éden é um paraíso preparado para o homem no qual temos o domínio sobre todas as coisas vivas. A natureza passou a ser como uma massa virgem, pronta para ser moldada e dominada. "Há poucos séculos, a idéia de resistir à agricultura, ao invés de estimulá-la, pareceria ininteligível", escreve o historiador Keith Thomas em O homem e o Mundo Natural. "A agricultura estava para a terra como o cozimento estava para a carne crua. Terra não cultivada significava homens incultos", diz ele.
Sem seus poderes, a natureza ficou à mercê do ser humano, que se aperfeiçoou em explorá-la. O respeito do passado deu lugar a uma visão utilitária, ou seja, tudo o que servia ao ser humano estava liberado. Mater bichos por prazer já não chocava ninguém mesmo porque todo mundo praticava alguma tortura de animais. Keith Thomas dá muitos exemplos dessas crueldades. Um deles: donas-de-casa do século 17 cortavam as pernas de aves vivas, acreditando que isso deixava a carne mais tenra. Açular um touro significa atiçar cães contra ele. Há cerca de 350 anos, acreditava-se que o açulamento melhorava o sabor da carne do outro e a maioria das cidades inglesas tinha uma lei que não só permitia o açulamento antes do abate, como o tornava obrigatório.
A visão que se tinha da natureza era antropocêntrica. Os animais eram classificados em comestíveis e não-comestíveis, ferozes e mansos, úteis e não-úteis. O reino vegetal era loteado de forma parecida. Só em 1500 surgiram os primeiros naturalistas, que passaram a classificar os seres por suas características e não pela relação que tinham conosco.
Somos iguais, diz a ciência. Nâo é segredo que a ciência desbancou a religião no papel de intérprete do mundo natural. E a ciência diz que a Terra não é um jardim dado de presente por Deus à humanidade, cheio de bichinhos para desfrutarmos como quisermos. Na versão cientìfica, a vida evoluiu por tentativa e erro, gerando desde bactérias até os mamíferos e o homem. Aos poucos, foram caindo as barreiras que nos diferenciavam das bestas. Percebeu-se que nossos corpos e os dos animais eram muito parecidos, que eles também tinham linguagem, embora mais rudimentar, e que podiam raciocinar. Aristóteles dizia que o homem era o único animal político, mas os primatologistas hoje sabem que os chipamzés têm uma vida social digna de novela, com favores, amizades e falsidades. Já para Benjamim Franklin, o homem era o único animal que fabrica utensílios, mas primatas não só fazem suas ferramentas como ensinam os colegas a fabricá-las, gerando uma "cultura animal".


No rodeio, o cavalo não pula para tirar o vaqueiro das costas, mas pela dor causada pela cinta de couro que lhe aperta os genitais.

Esse conhecimento científicio abriu caminho para a idéia de igualdade entre todas as formas de vida. Em algumas décadas, o oceano que nos separava dos animais virou um córrego. Muitos não gostaram dessa proximidade e procuraram formas de se diferenciar dos bichos. Uma delas foi apelar para uma das poucas diferenças que até hoje se sustenta: a religião. O homem é o único ser com uma alma imortal, ou, em outras palavras, é o único com moral, capaz de discernir o que é certo e o que é errado. "A religião e a moral são tentativas de restringir os aspectos animais da natureza humana, o que Platão chamava de "o animal selvagem dentro de nós" ", diz Keith Thomas. Não por acaso, o diabo é representado por um bicho. No século 17, isso era uma novidade. Até então, as pessoas pensavam que os animais também sabiam o que era certo ou errado. Bichos que desrespeitassem a lei eram levados a julgamento. O Antigo Testamento previa a pena de morte para animais que matassem pessoas. Segundo Keith Thomas, houve um caso em que marujos atacados por tubarões vingaram-se dos peixes capturando um cardume e torturando-os.
Outro jeito de se diferenciar dos bichos era pelo comportamento. Foi assim que surgiram os primeiros manuais de etiqueta: para que as pessoas não agissem como animais que eram. Ficar nu, ter cabelos compridos, trabalhar à noite e até nadar eram atitudes condenáveis. Passaram a ser suspeitas também as pessoas que viviam muito próximo dos animais, o que significava quase toda a população da época. Até o final do século 18, mesmo nas cidades apinhadas a familia dividia o teto com patos, porcos e cabras. O estábulo era separado do quarto de dormir por uma parede. Não demorou muito e os animais foram expulsos de casa. Como não podiam viver pelas ruas, foram expulsos também das cidades.
A partir de então, tirando os animais de estimação, os bichos só entravam na casa mortos, para serem comidos. Alguns, nem assim. Afinal, são poucos os animais aceitos à mesa, graças a hábitos alimentares baseados em costumes antigos, sem critérios científicos. Um desses critérios era a dieta do animal. Não se comiam carnívoros e devoradores de carniça ou excrementos, nem animais de trabalho. Não por acaso, o rosbife inglês popularizou-se ao mesmo tempo que o boi perdeu sua função como animal de tração. Outros critérios eram a semelhança com o homem ( que tirou os macacos do cardápio ) e o ambiente do bicho: na Inglaterra, rãs, lesmas, cogumelos e ostras eram considerados nojentos. Mas, como diz a mãe para a criança que faz cara feira à mesa: "Tudo é costume". Os franceses comiam pernas de rã revirando os olhos de alegria.
Nessa época, foi tomando corpo uma teoria que acabou servindo de justificativa moral para as pessoas que queriam continuar comendo carne: o mecanicismo. "Para os mecanicistas, os animais e o corpo humano eram apenas máquinas. Mas nós temos mente e, portanto, uma alma "separada", diz o filósofo Roberto Romano, da Universidade Estadual de Campinas ( Unicamp ). O filósofo francês René Descartes, um dos mais conhecidos mecanicistas, dizia que os sentimentos, como a dor e o sofrimento, moravam na alma. Como animais não têm alma, então também não sentem dor, era a dedução lógica. "A explicação cartesiana era uma ótima justificativa para o tratamento que era dado aos animais, porque eliminava a culpa pelas crueldades", afirma Thomas.
A tese de que os animais eram insensíveis perdeu popularidade, mas a atitude que ela incentivou sobrevive até hoje entre gente que lida com animais: vaqueiros que maltratam o gado, cientistas que matam animais à toa. Para a maioria das pessoas, porém, cujo único contato com animais era com seu cachorro ou com seu cavalo ( algumas das poucas espécies que ainda eram aceitas nas cidades ), a história de que só homem sente dor não colou. Pelo contrário. A multiplicação dos bichos de estimação fez aumentar o sentimentalismo em relação aos animais. As pessoas enxergavam neles cada vez mais traços humanos. Além de dor, eles passaram a ter ataques nervosos, vícios e carências. Aos poucos, o tempo foi apagando as lembranças ruins do trabalho rural e só restou uma nostalgia campestre. De repente, a floresta, antes chamada de "terrível", passou a ser bela. Até o século 16, matar animais selvagens considerados perigosos ou daninhos rendia recompensa. Menos de 300 anos depois, já havia gente querendo proteger o urso, que estava desaparecendo da Europa.
Para algumas pessoas da cidade, passou a ser intolerável o uso de animais. Qualquer uso, mesmo para comer. Foi o primeiro surto de vegetarianismo no Ocidente. Logo alguém achou na Bíblia uma justificativa para se viver de alface: o homem não era originalmente carnívoro, diziam, só depois do Dilúvio é que fomos comer carne. É claro que havia gente menos sensível, que não se incomodava em comer uma boa bisteca. Mas mesmo esses tiveram que mudar sua atitude à mesa, para não ofender a sensibilidade alheia. Nada de servir leitões, lebres ou vacas acompanhados de suas cabeças, como era comum até o século 18. Entre o descaso de uns e o zelo excessivo de outros, foram surgindo leis para regular o trato dos animais. Em linhas gerais, até hoje elas permitem o uso de algumas espécies e a eliminação das ameaçadoras. Mas causar sofrimento por prazer é proibido.
Temos direito  de usá-los?
Como todas as outras espécies, a humanidade tem o direito de fazer o que achar necessário para sobreviver e se multiplicar. Qualquer coisa, desde dizimar os búfalos norte-americanos até virar vegetariano. Os únicos limites a isso são aqueles impostos por nós mesmos, que começam como regras morais e acabam virando leis. Portanto,s e algguém conseguiu convencer o resto da humanidade ( ou a parte mais influente dela ) de que não é legal maltratar animais, nada mais justo que se proíbam os maus-tratos. Agora, entidades como a Peta ( People for the Ethical Treatment of Animals ) querem nos persuadir a deixar de usar os animais para tudo. E, para nos convencer dessa idéia, estão jogando pesado ( como comparar matadouros com campos de extermínio nazistas ).
A proposta de abandonarmos de vez os animais não é nova. Ela já está por aí, tentando conquistar adeptos, desde 1975, quando foi publicado Animal LIberation ( "Libertação dos Animais", indédito no Brasil ), escrito pelo filósofo australiano Peter Singer. Na época, o livro foi saudado como uma sequência lógica dos fatos recentes. A escravidão dos negros foi banida no século 19, mas sua igualdade só foi reconhecida na metade do século 20 ( muita gente dirá que ainda não foi ). A fumaça dos sutiãs queimados, marca do movimento feminista, ainda estava no ar. E os homossexuais começavam a ser admitidos como iguais. Parecia que, na infinita fila dos oprimidos, era chegada a vez dos animais.
E Singer mostrou-se um bom advogado dos não-humanos, com boas respostas para tudo. Sua teoria se baseia na idéia da igualdade entre os homens. Certo, somos todos iguais perante a lei. Mas igualdade, diz ele, não quer dizer que somos idênticos. Algumas pessoas são mais inteligentes que outras. Para o conceito de igualdade, isso não importa. Se o físico alemão Albert Einstein precisasse de um transplante de rim, não poderia obrigar ninguém, nem o pior aluno da escola local, a doar seu órgão à ele. Por quê? Porque o interesse dos dois tem o mesmo valor. Para Singer, não há razão para que isso não valha também para os animais. "Se a posse de um grau mais alto de inteligência não autoriza um ser humano a usar outros seres humanos para seus próprios objetivos, como poderá autorizar os humanos a explorar, com o mesmo propósito, os não-humanos?"
Mas isso não significa conferir aos animais os direitos ou o tratamento dados à uma pessoa. Conceder direito de voto aos cavalos não faria sentido nenhum. Só os interesses iguais podem ser comparados. E onde é que nossos interesses se igualam aos de um boi? Na aversão ao sofrimento, diz Singer. Animais, assim como humanos, sentem dor e não gostam dela. Ou seja, devemos evitar causar dor a eles com o mesmo cuidado que evitamos causar dor a uma pessoa. E isso vale para vários tipos de sofrimento, inclusive psicológico: medo, ansiedade, frustração e estresse. É nossa obrigação evitar causar esses sentimentos à eles, com tudo o que isso significa: parar de comer carne, abandonar experimentos científicos com cobaias e banir os animais de estimação, para ficar nos três exemplos mais dramáticos.
Não é uma mudança das mais fáceis, mas, mesmo assim, é difícil escapar do raciocínio de Singer. Afinal, porque temos consideração pelo sofrmento de outro ser humano e não pelo dos não-humanos? Se você pensou em responder "porque somos humanos", cuidado. Reservar privilégios ao grupo a que você pertence é preconceito, diz Singer, como racismo e sexismo. Discriminar animais só porque são animais é chamado de especicismo, uma atitude moralmente indefensável, diz ele.
Mas humanos têm uma noção de futuro que os animais não alcançam. A morte de uma pessoa, portanto, tem mais significado que a de um animal, porque com ela morre um plano para os dias que virão. "Uma pessoa com deficiência mental grave e órfã não tem essa noção de futuro", diz Peter Singer. "Um chimpanzé ou um porco tem um grau mais alto de autoconsciência e maior capacidade de relacionar-se do que uma criança com uma doença mental séria". Os animais, portanto, merecem um direito à vida tão consistente quanto o assegurado aos doentes mentais. É claro que ele não está sugerindo que ocupemos o manicômio e cortemos os internos em bifes. Sua intenção não é degradar doentes mentais, senis ou crianças, mas justamente o contrário: elevar o status dos animais.
Então, professor Peter Singer, como deveríamos tratar os animais? "No que diz respeito aos animais selvagens, deveríamos abandonar o contato com eles. Quanto aos outros, deveríamos parar de reproduzi-los, exceto por um pequeno número deles, que poderíamos manter em reservas para que não fossem extintos", disse ele em entrevista à Super Interessante.
É bom que se diga que Singer é um filósofo utilitarista, ou seja, para dizer se uma atitude é certa ou errada, ele estima seus efeitos e decide baseado na comparação entre o prazer e o sofrimento que ela causaria a todos os afetados. O detalhe é que ele põe no cálculo também os sentimentos dos bichos ( vertebrados somente, porque, até onde sabemos, são os únicos que sentem dor ). Mas há ressalvas. Se nosso interesse entrar em conflito com o dos animais, temos prevalência, porque nossa capacidade de planejar o futuro eleva nossa existência. Também está liberada a autodefesa contra ameaças animais. Ou seja, se você acabar em uma ilha deserta com uma vaca, fique à vontade para devorá-la. E, se sua casa for infestada por ratos, tudo bem eliminá-los.
No mundo de hoje, se calcularmos o sofrimento usando a fórmula de Singer, vamos descobrir uma dívida moral imensa. A fazenda está longe de ser um lugar bucólico cheio de bichos felizes ( Leia o quadro abaixo ).
 



Ponha-se no lugar de um frango que vive amontoado sob luz artificial quase ininterrupta, equilibrando-se no arame do fundo da gaiola e que tem seu bico cortado com uma lâmina quente, para evitar que ele selecione a comida que lhe é dada ( e para que, de nervoso, não ataque e mate os outros frangos ), até que, um dia, uma descarga elétrica o ponha para dormir enquanto uma lâmina corta seu pescoço. Sua vida está mais próxima de um pesadelo sem fim do que de um sonho idilico. Multiplique essa tortura por 14,85 bilhões de aves que vivem nas condições acima e você verá o tamanho da nossa culpa.
Onde foi parar aquele respeito ancestral, que exigia desculpas por cada animal abatido: Segundo o jornalista americano Michael Pollan, em seu artigo na revista do jornal The New York Times, a consideração foi soterrada pelo dinheiro. "Sempre houve uma tensão entre a pressão capitalista para maximizar os lucros e as regras religiosas da comunidade, que serviam como um, contrapeso para a cegueira moral do mercado", diz ele. "As criações industriais são um exemplo do que pode ocorrer na ausência de constrangimento moral". Mateus Paranhos da Costa, etólogo da Unesp de Jaboticabal, especialista em bem-estar animal, diz que o problema é medir nosso convívio com os bichos pela relação custo-benefício.
E aí, você se convenceu de que devemos abandonar o uso de animais: Antes de responder, talvez seja melhor saber se isso é possivel.
Podemos viver sem eles? Não. Primeiro, por questões alimentares. É verdade que o consumo de carne, que ao longo da evolução humana desempenhou um papel fundamental no desenvolvimento de nosso cérebro potente, já não é mais fundamental. Apenas de sermos onívoros por natureza ( digerimos carne e vegetais ), conhecemos hoje fontes protéicas capazes de substituir o bife. Mas submeter crianças a uma dieta vegetariana, como sugere Singer, seria no mínimo leviano. Para obter proteína suficiente da dieta vegetariana, precisamos ingerir grandes porções de vegetais protéicos, como soja e feijão. E muitos nutricionistas acham que algumas crianças não conseguiriam processar a quantidade de soja necessária para um crescimento saudável. Enquanto restar essa dúvida, é legítimo que os pais tenham a opção de oferecer um filé aos seus filhos.
Além do que, uma humanidade vegetariana causaria um impacto ambiental razoável, porque consumiria muito mais petróleo. Primeiro porque o vaivém de alimentos pelo planeta aumentaria. Vivemos em todos os cantos do globo há tanto tempo porque comemos carne, mas são poucos os locais do planeta capazes de produzir uma dieta completa de vegetais. Para driblar essa deficiência, seria preciso transportar muita comida ou investir pesado em fertilizantes ( se bem que o melhor adubo, o esterco de boi, estaria escasso ). Além disso, a principal alternativa ao couro são os tecidos sintéticos, feitos de derivados de petróleo ( sem contar os produtos industriais que levam algum composto animal ).
Mantenhamos os bois e libertemos os demais, então? Ainda não. Se a controvérsia quanto à carne persiste, a briga esquenta mesmo quando se fala de pesquisa científica com cobaias, chamada de vivissecção. De um lado, os cientistas defendem que estudar doenças e tratamentos em seres vivos é fundamental para os avanços médicos e farmacêuticos. A cura do câncer, a vacina contra a aids e a luta contra contra o Alzheimer e o mal de Parkinson, por exemplo, dependem da pesquisa de corpos inteiros, em funcionamento. Em posição oposta, os ativistas de proteção animal afirmam que pesquisas em animais não servem para nada, porque nossos corpos são muito diferentes. A falta de diálogo entre os grupos torna difícil saber se vale a pena brigar pelo fim dos experimentos.
Mas nossa dependência dos bichos vai além. Temos uma necessidade psicológica de nos relacionar com os animais que não pode ser satisfeita pelo contato humano. É o que diz Hannelore Fuchs, médica veterinária e psicóloga de São Paulo, especialista na relação entre humanos e animais. Hannelore leva cães e coelhos para visitar pacientes em hospitais e diz que há muitos benefícios nesses encontros. "O contato com os bichos faz o corpo liberar endorfinas ( um analgésico natural ), relaxa, melhora a resposta imunológica e comprovadamente diminui o tempo de hospitalização. Para pacientes deprimidos ou solitários, as visitas diminuem as queixas e o uso de tranquilizantes". Uma característica fundamental da relação com o animal, diz ela, é a disponibilidade. Um cão saudável atenderá feliz e prontamente o chamado do dono a qualquer hora do dia ou da noite. "Ninguém dá esse tipo de afeto", diz ela. O biólogo americano Edward O. Wilson chama essa afinidade de biofilia. Para ela, há algo no nosso DNA que nos faz querer bem tudo o que é vivo.
Para o etólogo e antropólogo Antonio Fernandes Nascimento Júnior, o animal preenche uma lacuna existencial em nós. "O animal serve como um espelho, em que o ser humano procura ver a si mesmo. Os índios americanos comiam o bisão não só pela carne, mas também para adquirir sua força, seu espírito", diz ele. E isso continua valendo. "O dono do pitbull enxerga no cão características que ele admira, que valoria para si. E o caçador, em geral, tem uma reverência por sua caça".
Enfim, viver sem animais seria um sonho pouco realista. Para o etólogo Cesar Ades, da Universidade de São Paulo, especialista em comportamento animal, o homem nasceu entre os animais e sempre teve relações com eles. "Não usar animal nenhum faz parte das utopias", diz Ades.
Então, como tratá-los? Se você acredita nas idéias de Peter Singer e acha que só devemos utilizar os animais no que for indispensável, há uma expressão utilizada pelos ativistas que pode ajudar: "redução, refinamento e substituição". Isso significa reduzir o consumo de animais onde eles são iindispensáveis ( carne só para as crianças, por exemplo ), melhorar o tratamento aos bichos que forem utilizados ( ainda há frangos criados soltos ) e substituí-los onde for possível ( algumas marcas de cosméticos e não testam produtos em cobaias ). Essa é a atitude mais radical. A partir daí, até os limites aos maus-tratos impostos pela lei, há vários caminhos, que só cabe a você escolher.
Mas é impossível tratar melhor os animais se não soubermos como eles querem ser tratados. É preciso conhecer suas vontades. E cada vez há mais informação sobre suas necessidades.


A fazenda não é um lugar bucólico com bichos felizes. A vida de muitos eles lembra mais um pesadelo que um sonho idílico.


Em primeiro lugar, é preciso entender que a domesticação não precisa ser uma exploração. Do ponto de vista ecológico, a domesticação é uma simbiose, uma associação entre espécies em que ambas se beneficiam, ou seja, elas se tornam mais aptas a se multiplicar e sobreviver, mesmo que nas condições mais hostis. Por esse ponto de vista, os animais de estimação podem ser considerados um caso de sucesso. É bom lembrar que os bichos domésticos proliferaram, enquanto os selvagens foram dizimados. Nos Estados Unidos, por exemplo, há 10 mil lobos, contra 65 milhões de cães. Além disso, se a domesticação fosse algo imposto aos bichos, como explicar os muitos casos de animais que se entregam voluntariamente ao convívio humano? O pato crioulo, por exemplo, uma ave selvagem brasileira, pousa às vezes em uma granja, atraído pelo alimento e pela tranquilidade. Vai ficando, ficando, até que, de tão pesado, não consegue mais voar e fica na fazenda. Acaba na panela. Pode-se dizer que o animal de criação não tem liberdade para fazer o que quer. Mas, afinal de contas, quem tem?
A teoria de Singer ( e a motivação dos ativistas ) soa tão diferente porque ele não acredita nisso. Ele discorda de uma premissa básica da teoria mais difundida sobre a natureza. Em outras palavras, ele não acha que as espécies tenham como interesse fundamental a sobrevivência. "Eu não acho que a reprodução é um interesse básico para os animais", disse ele à Super Interessante.
E se criássemos animais com  respeito por suas necessidades e os matássemos sem dor? Nesse caso, nem Peter Singer iria se opor: "Eu não estaria suficientemente confiante nos meus argumentos para condenar alguém que comprasse carne de um lugar desses", disse o filósofo em entrevista à revista do The New York Times. De fato, viver confortavelmente e no final ser morto de um golpe, sem desconfiar do perigo, parece bem melhor do que viver sob perigo constante em liberdade e, um dia, acabar perseguido por um grupo de lobos recebendo mordidas nas canelas ou ser devorado vivo por um urso. Guardadas as diferenças, é uma troca parecida com a do sujeito que abre mão do impulso genético de transar com o maior número de garotas para viver no conforto do casamento.

Em outras palavras, não é preciso abandonar os animais para evitar causar sofrimento a eles. Basta tratá-los da melhor maneira possível. Mas como saber o que eles querem, se eles não falam? O movimento de proteção animal desenvolveu uma lista de mandamentos que, se cumpridos, eliminam o sofrimento animal. Chama-se "As Cinco Liberdades Básicas" e diz que devemos livrar os animais de: 1) fome e sede, 2) desconforto, 3) dor, machucados ou doença, 4) limites ao seu comportamento normal e 5) medo e estresse. Para o etólogo Mateus Paranhos da Costa, da Unesp, a cartilha é uma fantasia de quem não lida com animais. "A busca pela ausência de sofrimento é justa, mas não é realista. O sofrimento faz parte da vida". O fundamental, diz ele, é o respeito pelo bicho. E, para isso, é preciso despertar o respeito nas pessoas que lidam com animais e informá-las sobre as necessidades dos bichos.
Até os animais de estimação precisam de mais respeito. Segundo o veterinário canadense Charloes Danten, bichos de companhia sofrem, e sofrem muito. Tudo começa na infância do animal. O filhote se liga a quem cuida dele, seja a mãe ou o dono. Na natureza, a mãe corta essa ligação para que o filhote aprenda a cuidar de sua vida, mas, fora dela, o dono a incentiva, impedindo o mascote de alcançar a maturidade emocional. Como um filho mimado, o animal vive carente de atenção e adota comportamentos bizarros para conquistá-la, como se masturbar, derrubar coisas ou morder as visitas.
Quando isso acontece, a maioria dos donos abandona, passa a tratar mal ou dá ainda mais cuidados aos animal, o que só piora a situação. Alguns levam o bichinho a um psicólogo de animais, mas, quando descobrem que eles também precisam mudar seus hábitos, acabam aceitando a sugestão de dar remédios como Prozac ou Valium para o mascote ficar mais tranquilo. A atitude mais saudável seria deixar o animal à vontade para se expressar como queira, mesmo que isso signifique não dar a mínima para o dono. Mas, diz Danten, como há pouco sentido em ter um animal que não pode ser moldado à nossa maneira, o melhor é não ter animais, coisa que ele promete fazer assim que seu gato morrer.
Mas aos poucos o respeito está voltando. Em algumas granjas, as galinhas ganharam poleiros, ninhos e brinquedos para passar o tempo. Na fazenda, os vaqueiros que são alertados para ter mais cuidado com o animal facilmente percebem os abusos que cometem e melhoram o trato. Nos laboratórios, a anestesia é cada vez mais mais usada nos testes com cobaias. No zoológico, tratadores escondem a comida pela jaula, para o animal passar mais tempo procurando por ela, como na natureza. Quem sabe, em algumas décadas, estaremos novamente rezando para o bife que nos é servido.


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MATÉRIA DE CAPA DA REVISTA SUPER INTERESSANTE
Data: ABRIL 2002
Tema: Deveríamos parar de comer carne?


Câncer, doenças cardíacas, crueldade com os animais, matança de semelhantes, desastre ecológico... Afinal, será que você deveria virar um vegetariano?


Comer não é só uma questão de matar a fome. A decisão sobre que comida colocar no prato tem implicações econômicas, ambientais, éticas, culturais, fisiológicas, filosóficas, históricas, religiosas. Embora a porcentagem de vegetarianos venha se mantendo mais ou menos estável ao longo da história, há um interesse crescente no assunto - restaurantes naturais e vegetarianos ficam lotados na hora do almoço, tornou-se comum, pelo menos nas classes médias urbanas, a preocupação em reduzir o consumo de carne, e surgiu uma indústria bilionária de produts naturais que, nos Estados Unidos, já movimenta quase 8 bilhões de dólares.

Esta reportagem não ensina você a comer. Felizmente, essa ainda é uma decisão pessoal, que depende apenas do seu julgamento sobre o que é certo e o que é errado e- não menos importante - do seu gosto. O que essa matéria faz é tentar ajudar na decisão com o máximo possível de informação insuspeita sobre cada um dos muitos aspectos envolvidos nessa importante decisão. Se você, depois de terminá-la, vai devorar um brócolis ou um cheeseburger, já não é assunto nosso. Só esperamos que, terminado o texto, ao decidir o que comer, você saiba o que está fazendo o que isso implica.

O que é carne? A faca desce macia, cortando sem esforço o pedaço de picanha. Dourada e crocante nas bordas, tenra e úmida no centro. Você põe a carne na boca a mastiga devagar, sentindo o tempero, a maciez, a temperatura. O sumo que escorre dela enche a boca e, com ele, o sabor incomparável. carne é bom.
Mas que tal assistir à mesma cena sob outra perspectiva? No prato jaz um pedaço de músculo, amputado da região pélvica de um animal bem maior que você. Com a faca, você serra os feixes musculares. A seguir, coloca o tecido morto na boca e começa a dilacerá-lo com os dentes. As fibras musculares, célular compridas - de até 4 centímetros - e resistentes, são picadas em pedaços. na sua boca, a água ( que ocupa até 75% da célula ) se espalha, carregando organelas celulares e todas as vitaminas, os minerais e a abundante gordura que tornavam o músculo capaz de realizar suas funções, inclusive de se contrair. Sim, meu caro, por mais que você odeie pensar que a comida no seu prato tenha sido um animal um dia, você está comendo um cadáver.
Carne é tecido animal, em geral muscular. As fibras que a compõe são feixes de célular musculares, enroladas umas nas outras. Em volta delas, há uma cobertura de gordura, cuja função é lubrificar o músculo e permitir que ele relaxe e se contraia suavemente. Ou seja, não há carne sem gordura.


Não existe carne sem gordura. Além da camada protetora que protege algumas peças, há gordura entre as células.

A diferença entre carne branca e vermelha é a quantidade de ferro no tecido - o mesmo mineral que dá cor ao sangue. As célular de animais grandes, como o boi, são ricas de uma molécula chamada mioglobina, que contém ferro. Peixes e galinhas, por terem o corpo menor, não precisam de reservas tão grandes de nutrientes nas célular e, por isso, têm menos nioglobina. Animais mais velhos têm carne mais vermelha - isso explica a brancura do frango industrializado, abatido antes dos dois meses, se comparado à galinha caipira. Essa última tem mais tempo para acumular mioglobina nas células.
Números, números, números. Há no mundo 1,35 milhões bilhão de bois e vacas. Criamos 930 milhões de porcos, 1,7 bilhão de ovelhas e cabras, 1,4 bilhão de patos, gansos e perus, 170 milhões de búfalos. Some todos eles e temos uma população de animais quase equivalente à humana dedicando sua vida a nos alimentar - involuntariamente, é claro. E isso porque ainda não incluímos na conta a população de frangos e galinhas abastecendo a Terra de ovos e carne branca: 14,85 bilhões.



A humanidade cria quase 15 bilhões de galos e galinhas...

Só no Brasil há 172 milhões de cabeças de gado bovino - uma para cada cabeça humana. Nosso rebanho bovino só é menor que o da Índia, onde é proibido matar vacas. Na média, um brasileiro come perto de 40 quilos de carne bovina por ano - ou seja, uma família de cinco pessoas devora uma vaca em 12 meses. Somos o quarto país  do mundo onde mais se come carne bovina ( veja quadro ). Um brasileiro médio come também 32 quilos de frango e 11 quilos de porco todo ano.
Todos os tipos de Vegetarianos: Vegetarianos não são todos iguais. Conheça as diferenças.
OVOLACTOVEGETARIANOS - Não comem carne de nenhum tipo, mas consomem ovos, leite e derivados. Em geral, quando alguém diz que é "vegetariano", é essa dieta que ele segue.
LACTOVEGETARIANOS - Provavelmente o mais numeroso dos grupos, já que essa dieta é predominante no sul da Índia - por razões religiosas. Nada de carne, mas leite e derivados estão liberados. O ovo é terminantemente proibido, por conter a "vibração da vida".
VEGANS - Não consomem nada de origem animal: carne, ovos, leite, mel. Roupas de couro, lã e seda também estão proibidas.
SEMIVEGETARIANOS - Aquelas pessoas que afirmam ser vegetarianas, mas abrem exceções para peixes ou aves. São vistos com desdém pelos outros grupos. A principal razão para essa dieta, que recusa só a carne vermelha, é o cuidado com a saúde.
MACROBIÓTICOS - Dieta tradicional japonesa, que pode ser vegan, ovolactovegetariana ou incluir peixe. Há varias restrições - a dieta acompanha as estaçãos do ano, o cardápio tem que incluir uma árvore toda, da semente ao fruto. Como foi elaborada no Japão, a macrobiótica não contempla a realidade brasileira ( as estações do ano, por exemplo, são diferentes aqui ). Isso pode levar a deficiências alimentares.
CRUDIVORISMO - Só comem vegetais crus. É preciso cuidado com essa dieta, porque ela exclui os grãos, que são as melhores fontes de proteína e ferro dos vegetarianos. Há risco de desnutrição.
FRUGIVORISMO - Os frugivoristas não só rejeitam carne, como evitam machucar ou matar vegetais. Por isso, comem apenas aquilo que as plantas "querem" que seja comido: frutas e castanhas. Consideram o consumo de folhas, caules e raízes uma violência. A dieta não é das mais saudávies, já que é pobre em proteínas e em minerais.
Carne faz mal? Quem come mais carne - especialmente carne vermelha - tem índices maiores de câncer e de enfarte, as duas principais causas de morte do planeta. É o que dizem as estatísticas. Carne faz mal, então? Não é tão simples.
Nos últimos 30 anos, as autoridades dos Estados Unidos vêm aconselhando os americanos a diminuir a ingestão de carne vermelha e manteiga por causa de suspeitas de que a gordura saturada presente em grande quantidade nesses alimentos aumenta a taxa de colesterol e, com isso, causa ataques cardíacos. O conselho virou norma no mundo todo - a Organização Mundial da Saúde e vários governos adotaram a política de reduzir a gordura saturada. Tudo muito bom, só que tem algumas peças que, mesmo após três décadas de pesquisas, continuam não se encaixando no quebra-cabeças.
Uma delas é a Europa mediterrânea. Lá, desde que terminaram os rigores da Segunda Guerra, o consumo de carne vermelha tem aumentado. Pois bem: a taxa de doenças cardíacas diminuiu no mesmo período. E a França? O país da pâtisserie, fã ardoroso das carnes vermelhas de todo tipo, onde qualquer almoço começa refogando o que quer que seja em manteiga derretida, tem uma das mais baixas taxas de mortes por ataque carídaco do mundo.
No ano passado, Gary Taubes, correspondente da revista americana Science e um dos principais escritores de ciência do mundo, escreveu um longo artigo no qual classificava o medo da gordura saturada como "dogma". Taubes afirma que, mesmo com tanta pesquisa, não há prova de que gordura saturada e enfartes estão ligados. E vai além: diz que a propaganda do governo só serviu para fazer com que os americanos comessem mais - ao evitar a gordura, eles acabavam ingerindo mais carboidratos, mais açúcar, para manter a quantidade diária de calorias ( o corpo tende a reclamar quando as calorias são insuficientes para saciá-lo - isso se chama fome ). Resultado: o índice de obesidade passou de 14% para 22% no país, E obesidade, sabidamente, é um sério fator de risco para doenças cardíacas.
A maior parte do mundo médico ainda acredita na malignidade da carne vermelha e da manteiga. ("Não tenho dúvidas da relação entre gordura saturada e doenças cardiovasculares", afirma o nutricionista argentino Cecílio Morón, oficial da agência da ONU que cuida de alimentação, a FAO. Denise Coutinho, que coordena a política de nutrição do governo brasileiro, repetiu quase as mesmas palavras.) Mas o artigo de Taubes serviu para mostrar que nutrição não é baseada numa relação simples de causa e consequência, tipo "mais carne, mais ataques cardíacos".
Mas, afinal, o que sobra da discussão? Dietas de países gelados como a Escócia e a Finlândia, onde o único vegetal consumido em quantidade é o tabaco, estão equivocadas. Os altos índices de ataques cardíacos por lá são prova incontestável. Mas os franceses, e os mediterrâneos em geral, devem estar fazendo alguma coisa certa. Sua dieta é variada e rica em vegetais frescos, azeite de oliva ( tido como redutor de colesterol ), vinho e carne de todos os tipos. Ao contrário dos americanos, esses povos comem com calma, em ambientes descontraídos. O que os está salvando dos ataques cardíacos? Os legumes, o azeite, o vinho, a conversa mole depois do almoço, a brisa marinha? Ninguém sabe ao certo. Provavelmente é uma conjunção de todos esses fatores.
O raciocínio vale em parte para o câncer também. Os comedores de carne morrem mais de câncer de intestino, boca, faringe, estômago, seio e próstata. Ainda assim, o elo entre carne e câncer é meio frouxo. Tudo indica que, se é que a carne aumenta mesmo a incidência de câncer, sua influência é bem pequena - um fator entre muitos.
Agora, de uma coisa ninguém tem dúvidas: vegetais fazem bem. Uma dieta rica em frutas, legumes e verduras claramente reduz as chances de ter câncer no esôfago, na boca, no estômago, no intestino, no reto, no pulmão, na próstata e na laringe, além de afastar os ataques cardíacos. Frutas e legumes amarelos têm caroteno, que previne câncer no estômago; a soja possui isoflavona, que diminui a incidência de câncer de mama e osteoporose; o alho tem alicina, que fortalece o sistema imunológico; e por aí vai - essa lista poderia ocupar o resto da revista. Em resumo: não está bem claro se a carne faz mal. Muito bem, pelo jeito, não faz. Mas, para ser saudável, o importante é ter uma dieta rica e variada de vegetais. Seja ela vegetariana ou não.
Dá para viver sem carne? Dá. O vegetarianismo exige cuidados e conhecimentos de nutrição, mas com certeza pode-se ter uma dieta saudável sem carne. Aliás, o fato de exigir cuidados a faz mais saudável. Um vegetariano tende a prestar mais atenção no que come e nos efeitos disso sobre seu corpo. E isso, em si, já é um hábito salutar. Muitos nutricionistas afirmam que as crianças não devem, de maneira nenhuma, ficar sem proteína animal, sob risco de terem o desenvolvimento cerebral prejudicado. Essa regra deve ser seguida a não ser que os pais saibam muito bem o que estão fazendo, conheçam as propriedades de cada alimento e - não menos importante - que a criança queira.
Os ovolactovegetarianos não têm problemas com proteínas porque os derivados de animais são tão protéicos quanto à carne. O perigo é que leite e ovos são pobres em minerais, especialmente ferro, que é fundamental para a saúde - ele é usado para construir a hemoglobina, uma molécula cuja função é carregar o oxigênio do pulmão para as células. Sem ferro, portanto, as células podem morrer. Isso é a anemia.
Ou seja, ovolactovegetarianos não podem basear sua dieta no leite, nos ovos e nos queijos, sob risco de ficarem sem nutrientes valiosos. É preciso comer muitos variados vegetais, em especial soja, feijão, brócolis, couve, espinafre - todos ricos em ferro. A quantidade é fundamental, porque o ferro dos vegetais é menos absorvido pelo corpo que o de origem animal. Uma boa dica é acompanhar as refeições com suco de laranja, já que a vitamina C ajuda na absorção do ferro. Outra fonte de ferro é a casca de grãos como o arroz e o trigo. Por isso, eles devem ser sempre integrais. Denise Coutinho, responsável pela política nutricional do governo federal, adiantou à Super Interessante que está em estudo uma medida para tornar a fortificação com ferro obrigatória nas farinhas de trigo e de milho. A medida, que visa combater a desnutrição, vai acabar ajudando a vida dos vegetarianos.
Já para os vegans, a palavrinha mágica é "soja". Se você não gosta desse grão ou é alérgico à ele, virar vegan vai ser bem mais penoso. A questão é a seguinte: suprir suas necessidades protéicas com carne é fácil. "Afinal, você é feito de carne", diz Pedro de Felício, especialista em produtos de origem animal da Universidade Estadual de Campinas ( Unicamp ). Um bife tem a mesma composição que os músculos do seu corpo, As proteínas das quais ele é feito são, também, iguais às suas, feitas com os mesmos aminoácidos. Portanto, contêm tudo o que você precisa.
Proteínas vegetais são mais simples. elas não contêm todos os componentes necessários. A soja, entre os vegetais, é o que tem as proteínas mais completas. Há outras fontes de proteína, como o feijão, mas se você não come soja, vai precisar de grandes quantidades e de muita variedade de vegetais para juntar todos os aminoácidos de que precisa. "Desde que sigam essa regra, os vegans tendem a ter uma dieta até mais equilibrada que os ovolactovegetarianos, já que não ocupam lugar no estÔmago com ovos e leite, que são pobres em vários nutrientes", diz o nutricionista Vegan George Guimarães.
Uma  questão para os vegans é a vitamina B12, que o corpo não produz e não existe em vegetais. A B12 é fabricada por bactérias e pode ser encontrada nos animais ( que ocmem bactérias ao ciscar ou pastar ). Mas suprir as necessidades de B12 é fácil: qualquer biscoito ou cereal com a palavra "fortificado", no rótulo, contém a vitamina. Ela também é vendida em cápsulas.
Somos vegetarianos por natureza? Não. "O homem tem dentes pequenos e sistema digestivo curto, características de onívoros", afirma o antropólogo físico Walter Neves, da Universidade de São Paulo, maior especialista brasileiro em homens pré-históricos. Ou seja, nosso organismo está preparado para comer de tudo, inclusive carne. Somos como o chipanzé, que, além de plantas, cata insetos, lagartos e roedores. E diferentes do gorila, que só come plantas e, para isso, tem dentes molares imensos e uma barriga enorme ( se você também tem uma, por favor não tome isso como uma comparação ). Os dentes grandes servem para criar mais área de mastigação e, assim, triturar melhor as folhas e tirar delas os escassos nutrientes. A barriga abriga o intestino e o estômago, que são bem maiores para dar mais tempo ao organismo de absorver o que interessa.
Walter afirma que, num passado longínquo, nos alimentávamos como chimpanzés. Mas há 2,5 milhões de anos nossa dieta mudou. Começamos a fabricar instrumentos de pedra e as novas armas permitiram que incluíssemos no cardápio a carne de grandes mamíferos. Assim, nossa ingestão de proteínsa animal aumentou demais. "Sem isso, não teríamos desenvolvido um cérebro grande", diz Walter. O aumento súbito de proteína na dieta permitiu que nosso corpo investisse mais recursos no sistema nervoso. Hoje, de 30% a 40% de tudo o que comemos vira combustível para fazer o cérebro funcionar. Sem o aumento na ingestão de carne, isso jamais seria possível.
Mas, na mesma época, surgiu um gênero de humanídeos estritamente vegetarianos. Conhecidos como Paranthropus, eles tinham grandes molares, eram barrigudos e não comiam animais de nenhuma espécie, nem insetos. Esses humanos vegetarianos conviviam com os humanos caçadores - há um lago no Quência onde foram encontradas ossadas das duas espécies, com aproximadamente a mesma idade, a poucos quilômetros de distância.
O Paranthropus se extinguiu há 1,2 milhão de anos, provavelmente porque sua dieta mais restritiva o atrapalhou na competição com nossos ancestrais generalistas. Nossos primos vegetarianos deviam ser muito menos espertosque seus contemporâneos Homo, como atesta o tamanho de seu cérebro. "Eles investiram os recursos do organismo em dentes, os Homo investiram no cérebro", diz Walter.
Quer dizer que precisamos comer carne para raciocinar? Não. Há 2,5 milhões de anos era assi porque não sabíamos plantar e nossa dieta quase não incluía plantas protéicas. Os únicos vegetais que comíamos eram frutas, folhas e raízes. Hoje, é possível ter uma dieta rica em proteínas sem carne.
Vaca, a onipresente: há quem diga que o problema de comer carne é moral: não teríamos o direito de matar para comer. Mas, se você acha que basta parar de comer carne para acabar com a matança, está enganado. Hà muito mais produtos no mercado que incluem animais mortos do que imagina a nossa vã filosofia.
Para começar, boa parte da indústria de vestuário depende de animais. O couro, você sabe, é a pele de bichos abatidos. para separar o fio de seda, é preciso ferver o bicho-da-seda. Além disso, filmes fotográficos e de cinema são recobertos por uma letaina, retirada da canela da vaca. Ou seja, um vegan radical só tira fotos digitais. Dos pés bovinos saem também substâncias usadas na espuma dos extintores de incêndio. O sangue bovino rende um fixador pra tinturas e a gordura acaba em pneus, plásticos, detergentes, velas e no PVC, Cremes de barbear, xampus, cosméticos e dinamite derivam da glicerina, substância que contém gordura bovina. A quantidade de medicamentos feitos com pedaços de gado, do pâncreas ao cordão umbilical, passando pelos testículos, é imensa.
Há um pouco das vacas também em vários produtos da indústria elimentícia - e não estamos falando só de bife à permegiana. A gelatina deve a consistência ao colágeno arrancado da pele e dos ossos. Aliás, quase toda comida elástica contém colágeno - da maria-mole ao chiclete. Os queijos curados são feitos com uma enzima do estômago do bezerro. Além dos bovinos, vários outros animais são usados pela indústria de comida. Vegans devem ficar de olho nos róo´tulos e evitar dois corantes: coxonilha e carmin. O primeiro, usado para tingir de azul, é feito de besouros moídos. O segundo, que pinta de vermelho, é feito de lesmas amassadas.
O planeta precisa de carne? Na verdade, se todos fossem vegetarianos, é provável que não houvesse tanta fome no mundo. É que os rebanhos consomem boa parte dos recursos da Terra. Uma vaca, num único gole, bebe até 2 litros de água. Num dia, consome até 100 litros. Para produzir 1 quilo de carne, gastam-se 43.000 litros de água. Um quilo de tomates custa ao planeta menos de 200 litros de água.
Sem falar que damos grande parte dos vegetais que produzimos aos animais. Um terço dos grãos do mundo viram comida de vaca. No Brasil, o gado quase não come grãos - graças ao clima é criado solto e se alimenta de grama. Mas boa parte de nossa produção de soja, uma das maiores do mundo, é exportada para ser dada ao gado. Outra questão é que a pecuária bovina estimula a monocultura de grãos. Num mundo vegetariano haveria lavouras mais diversificadas e teríamos muito mais recursos para combater a fome.
E não se trata só de comida. A pecuária esgota o planeta de outras formas. "Para começar, ocupa um quarto da área terrestre e não pára de se expandir", diz o ativista vegetariano Jeremy Rifkin. A pressão para a derrubada das florestas, inclusive a amazônica, vem em grande parte da necessidade de pasto. Entre os danos ambientais causados pelo gado, está também o aquecimento global. Os gases da flatulência de bois e ovelhas - não, isso não é uma piada - estão entre os principais causadores do efeito estufa.
Como vivem - e morrem - os animais?
BOIS - No Brasil, os bois são criados soltos. Provavelmente, essa forma de criação é menos terrível que a de países frios como Cone Sul e da Europa, onde os invernos matam o pasto e fazem com que os animais fiquem fechados em áreas apertadas, comendo só ração. Isso não quer dizer que seja o melhor dos mundos. Os animais muitas vezes passam fome, vivem cheios de parasitas e apanham copiosamente. "O manejo no Brasil é muito bruto", diz o etólogo Mateus Paranhos da Costa, da Universidade Estadual Paulista ( Unesp ), de Jaboticabal, especialista no assunto.
Não existe aqui no Brasil a produção de vitela - carne muito brana e macia de bezerros mantidos em jaulas superapertadas para evitar que se movimentem. Para acentuar a brancura da carne, os criadores não permitem que o bezerro coma grama ou grãos, só leite - a dieta tem que ser pobre em ferro e em outros nutrientes, forçando uma anemia no animal. Com isso, torna-se necessário o consumo de antibióticos, para diminuir o risco de infecções do animal desnutrido. "A vitela deveria ser proibida no mundo inteiro", afirma o agrônomo e etólogo Luiz Carlos Pinheiro Machado Filho, especialista em técnicas de manejo da Universidade Federal de Santa Catarina.
Para matar um boi, primeiro se dá um disparo na testa com uma pistola de ar comprimido. O tiro deixa o ainmal desacordado por alguns minutos. Ele então é erguido por uma argola na pata traseira e outro funcionário corta sua garganta. "O animal tem que ser sangrado vivo, para que o sangue seja bombeado para fora do corpo, evitando a proliferação de microorganismos", diz Ari Ajzenstein, fiscal do Serviço de Inspeção Federal ( SIF ), que zela para que as regras de higiene e de bons tratos no abate sejam cumpridas.
Em 1997, a ativista de direitos dos animais americana Gail Eisnitz escreveu o bombástico livro Slaughterhouse ( "Matadouro, inédito no Brasil" ), no qual acusava os matadouros de sangrar muitos animais ainda conscientes. "Não vou dizer que isso não acontece no Brasil, mas não é frequente", afirma Mateus Paranhos.



O abate a marretadas está proibido no país, o que não quer dizer que não aconteça - já que quase 50% dos abates são clandestinos e, portanto, sem fiscalização. O problema da marretada é que não é fácil acertar o boi com o primeiro golpe. Muitas vezes, são necessários dezenas para desacordá-lo.
GALINHAS - Essas quase sempre levam uma vida miserável. Vivem espremidas numa gaiola do tamanho delas. As luzes ficam acesas até 18 horas por dia - assim elas não dormem e comem mais ( isso acontece principalmente com as que produzem ovos ). Seus bicos são cortados para que não matem umas às outras e para evitar que elas escolham que parte da ração querem comer - caso contrário, ciscariam apenas os grãos de seu agrado e deixariam de lado alimentos que servem para que engordem rápido.
A morte é rápida. As galinhas ficam presas numa esteira rolante que passa sob um eletrodo. O choque desacorda a ave e, em seguida, uma lâmina corta seu pescoço. O esquema é industrial. Hoje, nos Estados Unidos, são abatidas, em um dia, tantas aves quanto a indústria levava um ano para matar em 1930. Nas granjas de ovos, pintinhos machos são sacrificados numa espécie de liquidificador gigante. Parece horrível, mas é a mais indolor das mortes descritas aqui.



PORCOS - Outros azarados. Não têm espaço nem para deitar confortavelmente. "São confinados do nascimento ao abate", diz Pinheiro Filho. As gestantes são forçadas a parir atadas a uma fiela, apertadas na baia. O abate é parecido com o de bovinos, com a diferença que o atordoamento é feito com um choque elétrico na cabeça e que o animal é jogado num tanque de água fervendo após o sangramento, para facilitar a retirada da pele. Gail Eisnitz afirma, em seu livro, que muitos porcos caem na água ferverdo ainda vivos, mas isso provavelmente é incomum.
PATOS E GANSOS - Os mais infelizes dos nossos alimentos provavelmente são os gansos e patos da França. O foie gras, um patê tradicional e sofisfitado, é feito com o fígado inflamado as aves. Os produtores colocam um funil na boca delas e as entopem de comida por meses, fazendo com qu eo fígado trabalhe dobrado. Isso provoca uma inflamação e faz com que o órgão fique imenso, cheio de gordura. Ou seja, o patê, na prática, é uma doença. Há movimentos pedindo o banimento do produto. Não se produz foi gras no Brasil.
E o que fazer a respeito? Há uma verdade inescapável: ao comermos carne, somos indifetamente responsáveis pela morte de seres que têm pai, mãe, sofrem, sentem medo. "Os vertebrados sentem dor", diz Rita Paixão, sifiologista e bioeticista da Universidade Federal Fluminense. Isso é um fato e, se você pretende continuar comendo carne, é bom se acostumar com ele. Mas podemos ao menos minimizar o sofrimento, escolhendo cmoidas que impliquem em menos crueldade. O mercado oferece alternativas.




Uma delas são os ovos caipiras, produzidos por galinhas criadas soltas, em companhia de galos, sob o sol - um desinfetante natural -, comendo o que querem com seus bicos inteiros. A maior granja brasileira de ovos caipiras é a Yamaguishi, que distribui "ovos da galinha feliz" pela região de Campinas e em São Paulo. "Os ovos que nós produzimos... quer dizer, que nossas galinhas produzem", diz Marcelo Minutti, gerente da granja, "são mais saborosos e não contêm substâncias químicas".
Frangos caipiras, criados em condições semelhantes, também já são encontrados nos supermercados. Sua carne é mais dura, mas é mais saborosa e a chance de conter substâncias perigosas, como hormônios e antibióticos, é mínima. A rede Carrefour, graças a uma politica da sede francesa, é uma dasuqe oferece o produto. Ele faz parte da linha !garantia de origem", só de produtos feitos com essa preocupação.
Os bois certificados com "garantia de origem" são bem alimentados e criados por pessoas treinadas por especialistas em comportamento animal para entender como ele pensa e manejá-lo sem violência. "Agora vamos produzir porcos com origem garantida, criados soltos", diz o veterinários Adolfo Petry, responsável, no Carrefour, pelos produtos animais garantidos com o selo. PRodutos assim custam entre 50% e 100% a mais que os convencionais. Apesar do interesse crescente do consumidor em diminuir a crueldade ( numa pesquisa feita pela Super Interessante na internet, 85% das 2408 pessoas disseram que deixariam de comer alimentos se soubessem que elas causam sofrimentos para animais ), a procura por esses produtos ainda é muito pequena.
A vaca e a humanidade: A criação de gado foi uma das maiores forças ditando os rumos da humanidade. Essa é a opinião do escritor Jeremy Rifkin, ativista polêmico, vegetariano convicto e pesquisador competente - um dos maiores críticos da biotecnologia e, por tabela, um dos maiores inimigos do establishment científico. Firkin, em seu Beyond Beef ( "Além da carne", sem versão em português ), mostra que devemos muitas coisas importantes ao hábito de criar vacas para matar. Veja algumas delas:
DEUS - Algumas das primeiras pinturas nas cavernas representavam vacas. Devemos à carne nossas primeiras manifestações artísticas, e, possivelmente, a origem das nossas religiões - essas pinturas são o primeiro registro de uma humanidade preocupada com o mundo espiritual, acertando as contas com os animais que matava.
DIABO - As tribos nômades de cavaleiros que habitavam a Eurásia há 6000 anos juntavam gado selvagem e o criavam nos pastos naturais. esses partores cultuavam um deus-touro, chamado Mithra, símbolo da força, da masculinidade, do poder. A necessidade de pastos novos a cada vez que acabava o antigo fazia deles expansionistas por natureza e, no início d era cristã, eles já tinham se espalhadoda Índia a Portugal. Com isso, o culto a Mithra - 25 de dezembro. estava estabelecido o Natal Depois, no Concílio de toledo, em 447, a Igreja publicou a primeira descrição oficial do diabo, a encarnação do mal: um ser imenso e escuro, com chifres na cabeça. Como Mithra.
GRANDES NAVEGAÇÕES - Na Idade Média, a carne raramente era fresca, e, por isso, havia muita demanda de temperos para disfarçar o sabor. Ao mesmo tempo, tinham se esgotado os pastos da Europa - não havia mais para onde levar os rebanhos crescentes. Resultado: os europeus caíram no mar em busca de um caminho para as especiarias indianas e de espaço para soltar os bois. Acharam mais espaço do que imaginavam: a América. Hoje, Estados Unidos, Brasil, Uruguai e Argentina têm alguns dos maiores rebanhos do mundo.
CONQUISTA DO OESTE - Em 1870, boa parte dos Estados Unidos tinha se transformado em pasto. Mas havia um obstáculo para a expansão. Os campos do oeste americano estavam tomados por hordas de búfalaos, que serviam de caça para as tribos indígenas. O governo americano não queria os búfalos, difíceis de manejar, e temia os índios. Adotou, então, uma solução simples: matar os búfalos e, assim deixar os índios sem comida. É assim que Rifkin resume a heróica "conquista do Oeste".
Naquela década, matar búfalo foi o que mais se fez na região. Havia "excursões turísticas" nas quais um trem emparelhava com manadas e os passageiros começavam a atirar. As carcaças eram abandonadas ao longo da ferrovia. Cowboys como Buffalo Bill se tornaram lendários por matar até 40 búfalos numa caçada. Em dez anos, as manadas, que eram tão grandes que levavam horas para passar, sumiram. Em 1881, a tradicional Dança do Sol da tribo kiowa foi adiada por dois meses porque os índios não conseguiam encontrar um só búfalo para o sacrifício ritual. Finalmente, acharam um animal solitário e o mataram. No ano seguinte, não encontraram nenhum.
INDÚSTRIA MODERNA - No final do século XIX surgiu uma novidade na indústria da carne: a esteira rolante. Em vez de depender de um açougueiro habilidoso, o matadouro podia usar vários funcionários pouco especializados, cada um fazendo um pouco do trabalho, enquanto a carcaça se movia sozinha. Uma "linha de desmontagem". Um dia, um mecânico que vivia em Detroit foi visitar essa linha. Anos depois, esse mecânico admitiria que a indústria do abate foi uma forte inspiração para sua própria fábrica, batizada em 1903 com seu sobrenome. O nome desse mecânico? Henry Ford.
Agora é com você. O que vai ser? Brócolis ou cheeseburger?


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ARTIGO PUBLICADO NO SITE
www.harekrishna.com.br

Matança de Animais

Srimad Bhagavatam, Canto 1, Capítulo 7, verso 37
Tradução e significado por Sua Divina Graça
A. C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada
F
undador-acharya da ISKCON

"Uma pessoa cruel e ignóbil que mantém sua existência à custa da vida de outras pessoas merece ser morta para seu próprio bem-estar, pois de outra forma degradar-se-á devido a suas próprias ações".

Significado

Pena de talião é a punição justa para uma pessoa que cruel e desavergonhadamente vive às custas da vida de outros. A moralidade política consiste em punir alguém com sentença de morte a fim de salvar a pessoa cruel de ir para o inferno. Que um assassino seja condenado pelo estado à sentença de morte resulta no bem do próprio réu, porque em sua próxima vida ele não terá que sofrer por seu assassinato. Tal sentença de morte é a menor punição que se pode oferecer ao assassino, e nos smrti-s€stras se diz que os homens que são punidos pelo rei com base no princípio da pena de talião purificam-se de todos os seus pecados, tanto assim que eles podem tornar-se elegíveis a serem promovidos aos planetas celestiais. Segundo Manu, o grande autor dos códigos civis e princípios religiosos, mesmo aquele que mata um animal deve ser considerado um assassino, porque a comida animal não se destina em absoluto ao homem civilizado, cujo dever principal é preparar-se para voltar ao Supremo. Ele diz que no ato de matar um animal há uma conspiração feita pela equipe de pecadores, e todos eles são passíveis de serem punidos como assassinos, exatamente como no caso de uma equipe de conspiradores que matam de comum acordo um ser humano. Aquele que dá permissão, aquele que mata o animal, aquele que vende o animal morto, aquele que cozinha o animal, aquele que administra a distribuição do alimento, e finalmente aquele que come este alimento animal cozido—são todos assassinos, e todos estão sujeitos a serem punidos pelas leis da natureza. Ninguém pode criar um ser vivo apesar de todo o avanço da ciência material, e por isso ninguém tem o direito de matar um ser vivo por seus próprios caprichos independentes. Para os comedores de animais, as escrituras sancionam somente restritos sacrifícios animais, e tais sanções existem apenas para evitar a abertura de matadouros, e não para incentivar a matança de animais. O procedimento sob o qual o sacrifício animal é permitido nas escrituras é bom tanto para o animal sacrificado quanto para os comedores de animais. É bom para o animal no sentido de que o animal sacrificado é imediatamente promovido à forma humana de vida após ser sacrificado no altar; e o comedor de animal é poupado dos tipos mais grosseiros de pecados (comer carnes fornecidas por matadouros organizados, isto é, lugares sinistros que geram todos os tipos de aflições materiais para a sociedade, a nação e as pessoas em geral). O mundo material é em si um lugar sempre cheio de ansiedades, e, pelo incentivo à matança de animais, toda a atmosfera polui-se cada vez mais, com guerras, pestes, fome e muitas outras calamidades indesejáveis.


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REPORTAGEM PUBLICADA NA REVISTA "QUEM"
Data: 13/05/2005, Edição 244
Seção: Caçarola
Tema: Tudo Natural

Quem disse que comida vegetariana tem de ser chata e sem graça? No GRÃO SEMENTE, no Rio, duas amigas botaram as mãos na massa para mostrar que é possivel fazer pratos saborosos, criativos e nutritivos sem nenhum tipo de carne, como o estrogonofe que elas ensinam aos leitores de QUEM.

Por Ligia Andrade. Fotos: Ernani D´Almeia/Quem



Foi um interesse em comum que uniu ainda mais as duas amigas, agora também sócias, Anna Elisa de Castro e Paula Mansur: ensinar as pessoas a comer bem. O projeto nasceu há sete anos, de um encontro casual em um restaurante orgânico. Elas começaram com um curso, para depois lançar o Grão Semente. A marca carioca tem como objetivo ensinar uma culinária de transformação e a proposta inclui consultoria gastronômica natural e serviçõ de bufê vegetariano e/ou crudívoro - para quem só consome alimentos crus. "Ensinanos como usar os alimentos de forma mais saudável. Ele acabam trazendo equilíbrio físico e mental", diz Anna. "A gente conversa e discute sobre tudo. Outro dia, no carro, criamos um prato", conta Paula.

NATURALISMO: Consultora gastronômica e chef de um bufê há 11 anos, Anna virou vegetariana ao conhecer Paula, criada "à base de arroz integral", como ela gota de dizer. Paula, além de acupunturista e fitoterapeuta, também trabalha com dieta chinesa, em que os alimentos são usados como remédios.

Por não encontrar um estrogonofe que achasse ideal, a chef Anna resolveu criar a própria receita. E deixou o prato do jeitinho que gosta: saboroso e saudável, já que não leva a gordura do creme de leite, substituído, na receita, pelo tofu. O catchup também foi descartado e em seu lugar entrou o tomate-cereja. Delicie-se sem culpa...



Estrogonoff de Shimeji com Palmito

Ingredientes: ( serve 4 porções )

* 400 g de cogumelos shimeji
* Salsa e cebolinha
* 400g de tomates-cereja
* 3 cebolas médias
* 500g de tofu
* 1 xícara de azeite extravirgem
* 1 xícara de shoyu
* Sal
* 300g de palmito

Modo de fazer:

1. Retire os talos dos cogumelos e separe os raminhos

2. Pique a salsa e a cebolinha, abra os tomates e retire as sementes. Corte uma cebola em pedaços grandes e as outras duas em pedaços pequenos.

3. No liquidificador, bata o tofu, o azeite, a cebola em pedaços grandes, os tomates, a salsa, a cebolinha e um pouco de sal. Se a misstura não estiver rosa o suficiente, acrescente mais tomates.

4. Em uma panela, coloque o shoyu com a cebola em pedaços pequenos, mexendo sempre.

5. Acrescente o shimeji até murchar.

6. Adicione o creme do liquidificador sem deixar ferver.

7. Jogue o palmito em pequenos pedaços.

8. Finalize polvilhando salsinha e cebolinha.

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REVISTA DA FOLHA
Data: 07/08/2005

Tema: Vira-lata é "cult"

Cães sem raça definida caem nas graças dos descolados, que partem para a adoção consciente

 A banqueteira Maria Alice com o vira-lata Sem Terra

Adotar um 'sem-terra' é superchique. Todo mundo que tem um cachorro de raça deveria também adotar um de rua, acho bacana", diz a banqueteira Maria Alice Solimene, que já teve dois beagles e hoje é dona de um vira-lata chamado "Sem Terra", abandonado na esquina de sua casa, na Vila Nova Conceição.


Compartilhando filosofia parecida, o artista plástico Rodrigo Bueno, 37, proprietário do antiquário Passado Composto, nos Jardins, diz com orgulho que é dono de cães sem pedigree: Cosme, Damião e Preta, todos sem raça definida, foram retirados de entidades protetoras. "Eles são únicos e muito afetuosos. Você não tem que ficar ensinando, já sabem o que fazer", conta ele, que já teve pastor e dogue alemão.
A glamourização do vira-lata se reflete em números. De acordo com a ONG "Vira-lata é Dez", que mantém 450 cães e 60 gatos, a procura por adoção aumentou 30% desde o início do ano. "As pessoas estão mais conscientes, às vezes levam até cães velhinhos e com deficiência física, o que não acontecia antes. Pensam: por que vou comprar um cão de R$ 1.000, se há tantos animais em asilos precisando de uma família?", diz Ana Tancredi, presidente da ONG.
A veterinária Andréa Acaui, que organiza feiras de adoção, concorda que ter um vira-lata hoje se tornou "cult", mas apenas entre os "politicamente instruídos". "Quem procura por vira-lata é o pessoal descolado mesmo. Isso independe de condições financeiras. Na feira de adoção, as pessoas mais pobres geralmente querem bichos de raça", conta.
O lado bom dessa "moda", segundo ela, é que incentiva as pessoas a tirar os animais das ruas. E com uma vantagem para os donos: os cães adotados de entidades protetoras já vêm vacinados, vermifugados e castrados.
"Não é bom pegar animais diretamente da rua, pois podem transmitir doenças ao dono e a outros cães da casa. E, ao levar um cão de rua para casa, é importante lembrar que ele precisa manter uma vida social. Deixá-lo confinado também configura maus-tratos", afirma.
Na Uipa, a entidade protetora de animais mais antiga de São Paulo com 110 anos e cerca de 1.200 cachorros disponíveis, a procura por adoção cresceu sobretudo nos últimos dois anos. Segundo Vanice Teixeira Orlandi, presidente do órgão, dois tipos se interessam pela adoção de SRDs: gente que realmente quer salvar um cão sem dono e gente que quer apenas economizar.
Beleza é questão subjetiva. "Não dá para dizer se o vira-lata é doável ou não, isso depende do quanto ele é capaz de comover. A idéia inicial, de adotar um vira-lata filhote, doce e saudável, se dilui quando as pessoas descobrem suas histórias, acabam levando até idoso e paraplégico", conta Vanice.
No Centro de Controle de Zoonoses, os cerca de cem animais disponíveis para adoção foram selecionados entre os mais dóceis e jovens (até um ano) encontrados na rua -os demais são sacrificados, em torno de 50 por dia. "No CCZ são adotados 50 cães por mês, em média. A maioria das pessoas vem com o desejo de salvar um animal, com a idéia de dar lar àquele que foi rejeitado", afirma a veterinária Elisabete Aparecida da Silva, do CCZ. Assim como acredita Vanice Orlandi, da Uipa, mais do que ter um vira-lata em casa, o que tem que entrar na moda, é o respeito aos animais, com ou sem raça.

Onde adotar:

CCZ (Centro de Controle de Zoonoses). R. Santa Eulália, 86, Santana, tel. 6224-5500.
Uipa (União Internacional Protetora dos Animais). Av. Presidente Castelo Branco, 3.200, tel. 3313-5976.
Vira-lata é dez (
www.viralataedez.com.br)
Adote um gatinho (
www.adoteumgatinho.com.br)
Quintal de São Francisco (
www.quintaldesaofrancisco.org.br)
Cia. dos Bichos (
www.ciadobicho.com.br)

 

O escritor russo Leo Tolstoy tornou-se vegetariano em 1885. Abandonando o esporte da caça, ele defendia o "pacifismo vegetariano" e era contrário a que se matassem mesmo as menores entidades vivas, tais como as formigas. Ele sentia haver uma progressão natural da violência que conduzia inevitavelmente a sociedade humana à guerra. Em seu ensaio "O Primeiro Passo", Tolstoy escreveu que o consumo de carne é "simplesmente moral, visto que envolve a execução de um ato contrário à conduta moral: matar". Tolstoy acreditava que, ao matar, " o homem suprime em si mesmo, desnecessariamente, a capacidade espiritual mais elevada - a de compaixão para com os seres vivos como ele - e, ao violar seus próprios sentimentos, torna-se cruel".




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